
Antonio Gil Neto
"Eu só quero o que existe, / por isso erijo este sonho, /concreto como o que mais concreto pode ser, / vivo como minha mão escrevendo / eu te amo, / não em português. Em língua nenhuma, (...)" (Adélia Prado)
Estamos mais uma vez em temporada de feituras. Vamos nos preparando para entrelaçar mãos, ideias, sintonizar fazeres. Engendrar sonhos. E o almejar, sempre. É tempo de sintonias, de nos envolver questões que importam ao bom exercício da nossa língua. Há uma força que ecoa, um chamamento pungente.
Será bonito, ainda importante, o reencontro com os já feitos, pensados, refeitos. Alegria em tudo, compromisso se tecendo. Falas, escutas, gestos. Os diferentes lugares pedagógicos, teorias e práticas mesclando-se, tons e talentos na mesma dança. Um resplandecer de sotaques, de olhares para o lugar que nos emoldura na vida. Uma espécie de enunciação, ares de pesquisa, frutos do experenciado. Atuações de aprimoramento ainda em prumo, observâncias. E o vislumbre de que estamos sob o mesmo céu. De trabalho, de afeto e do outro. E do que deverá resplandecer feito desenhos de Deus.
Quantos lugares são cenários dessa riqueza pedagógica! Agorinha alguns e outros que se há de imaginar: Malhada de Pedras, Patu, Cariacica, Manhumirim, Cabrobó, Breves, Umbuzeiro, Rio Brilhante, Rio verde, Içara, Dourados… Bailo-me em lembranças de relembrar. Como canção mineira que Elis canta lindamente: "Em volta dessas mesas existem outros/falando tão igual/Em volta dessas mesas existe a rua / Vivendo o seu normal/ Em volta dessa rua, uma cidade/ Sonhando seus metais/Em volta da cidade..."
Somos todos bem comum. A educação e o que se realiza pela justeza dos tempos.
E o nosso trato: somos da leitura e da escrita, jorro e sangue em palavras. Somos de cuidar do que elas guardam e possibilitam para que possam continuar morando em nosso viver. Resplandecer. Desabrochar nas múltiplas intenções e sonhos. (E pensar que as palavras não vivem mais só no papel: outro modus operandi?)
Como navio que se entrega ao mar, estamos em temporada de realizar pequenos sonhos. Um ensaio para a vida na própria vida. Dias de marés e peixes. Pequenas tormentas, calmarias. E a dança das águas ao tempo. O farol. Entre o hoje e dias e noites que já foram, virão os demais.
Somos náufragos em potencial. Nossa aventura na escola nunca chega ao fim. Sempre há a hora de partir e recomeçar. Sempre muita coisa para acontecer: desvendar palavras estrangeiras, verificar as surpresas saídas do armário quase proibido do imaginar. E no aventurar-se em livros de verdade! Nada de grave, fora a dor que lateja.
Feito prisioneiro jurado conto dias que faltam para usufruir de um prêmio suplício? Posso me lembrar e melhor compreender o que a minha avó dizia com todas as letras da sua vida de fogão de lenha: falar é uma coisa, fazer é que são elas! Não posso me enclausurar esperando o vale das promessas futuras. Isso não é da nossa profissão. Afinal, professor não é para qualquer um!
Há que se precisar de andaime, um patamar, algo próximo a um porto seguro. O estudo, firme e consolidado. Ser livre ou o mais livre possível nunca é fácil. O aparentemente estático, em silêncios, gerando esperas. Na memória do afeto permanecem.
Sabemos que Manoel de Barros poetizava vidas infantis no Pantanal. Mais: meio século de fazer poético sem se conhecer uma vírgula sequer desse "idioleto manoelês". De muitas infâncias virou telefonemas, virou palavras de publicar. Virou livros e mais livros. Virou auge em plena infância, de mais de 80 anos. Esse Manoel Barros, o poeta, como quer ser chamado será assim eternizado como a poesia é. De eterno brincar de palavras. Alimentou-se de inventações desde a leitura primeira. Quanto da arte desse poetar e de outros podemos emprestar para os nossos dilemas pedagógicos?
Seguro xícara de café ainda fumegando. Boto leite frio para acalmar a quentura, automaticamente ligo a tv. Mas olho a tela da janela, a vida se fazendo quieta. Tenho preciosos minutos de existir em cada manhã comum e singular. Há na base do trivial ensinar e aprender das letras uma espécie de contrato de confiança que se tece entre educadores e pais? Não estarão todos desejosos do sucesso de seus filhos-alunos? A preciosidade do educar. Hora de jogos límpidos. Daqueles que precisam se saber do caminho das águas. Matéria do ofício escolar.
Enquanto o Futuro não se transforma em agora, fico desenhando nessa escrita para brincar de ser fisgado. Haverá a boa imaginação, o formato, cores. Talvez um poemacanção ecoará pela rosa dos ventos, pelos tons das horas. Quero me inspirar em amorosidade. Mais esse brincar. E em palavras. Como um calor, sua única inquietude. Com fidelidade.
Clico devagar com o dedo mais valente o que precisa ser a última frase na telinha. Mas não é ainda. O que me tira e envia imagens me olhando com ares mais que suspeitos para ainda se saber? E a montagem. Oficina de borboletas. Arrumo forças para isso agora. Vou descobrindo maneiras de suportar pequenas tristezas que podem nos visitar sem me tornar pessoa amarga, sombria. Como pombo-correio quero cumprir a trajetória. Gasto meu tempo a descobrir-me. Olhares desabrochando, carícias. Fico pronto a colocar bandagens de afeto em cada revelação.
Sabemos na pele que o mundo também precisa de novas ordens. Mas onde estaria o bálsamo para algumas das nossas dores? Do rascunho brotaria algo pleno, frutos?
Sem reverência às páginas do futuro miremo-nos mais nas mudanças, nas nuvens, nos itinerários dos pássaros. Fiquemos donos das pequenas belezas que nos cercam. O que será que os alunos poderão ver e sentir? Saber pedacinho por pedacinho para dar alma e ação a sentimentos talvez ainda adormecidos. Caso crie alguma estratégia a partir desse agora singular, conte-nos. Sinto nascer agora mais uma delicada curiosidade. Bom para essas temporadas de tantas e tantas feituras.
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Antonio Gil Neto
Como chegar a um paraíso? Nem tudo compasso de sonhos, alegrias. Mas, lá fora, olhos de quem quer ver. Paineiras florescem em róseo esplendor, mais uma vez. Uma trilha pode aventurar-se a breves espantos. Resgatar mesmo material de sonhos que somos. Essencial. Maior.
Observo, quase sem saber, crianças em uniformes brancos que passam alvissareiras. Acenam em janelas infinitas, oferecem gestos de mar, sorrisos ao sol. Uma dor de íntima solidão me incomoda. Quanto nos doamos ao tempo, esse escrever com letras apagadas? Quanto nos valem silêncios até que nos lavem os olhos e nos levem?
Tanta gente compartilhando tantos. Assim, textos meio marotos dos facebooks. Ideias mesclam-se a indícios, perguntas com respostas, misto de comentários leves, quase diversão. E as entrelinhas? Há tecido tênue, diáfano aos que perambulam pelos cenários de nossa praça em aventuras que serão descobertas. Assim, olhos abertos. De cor.
De cá, do banco verde escuro, tenho vestígios e afeto. Estendo-me nesse veio de vida. Suspenso. Percebo flores murchas, frutos de apodrecer o chão. Amadurecimento não é isso. Deixa véu ao vento. Recolhe em sementes.
Preciso acordar o livro. Urge. Leio dedicatória e movimento de páginas, em desalinho bobo, vadio. Como uma paineira florida jorra sementes um livro brota no branco seus escritos. Mínimos arranjos de letras, espaços, pontuações. Meticulosamente tramados a leitores destramar. Há sempre um novinho em folha na paisagem das páginas!
Enveredo-me ao que me busca. Interessante reconstruir-me no gênero que flui em todas as letras. Motivo-me em novidades, em expectativas abstraídas de boa lavra. Pode um banco verde com paineira de textos estar em nossas salas de aula? E alunos se farão marinheiros de primeiras, segundas e infinitas viagens? O que lhes atiça? Pode ser a literatura. Deve ser?
Inicia-se aventurar. Com presteza, vigor, estratégias de mostrar, seduzir, enredar. Reconhecer aos olhos abertos pode dar certo. Pequenos delitos em nome de algo mais que amoroso.
O que vi acontecendo: feitos. Professores efetivam escolhas. Crescem. Há bonito papel de garimpar, garimpar-se, conseguir tal e qual para os alunos. No coletivo esboçado em verdades, os destinos pedagógicos. Como pedra de toque, numa escolha impregnada, "O Cortiço" ou "Vidas Secas" foge da estante para viver em vida pulsante. No miudinho.
Mil ideias flanam. Um bazar de miudezas, badulaques: o útil a todos. Nós, os que lidam com a língua, ficamos antenados mais. Matérias que nos situam no mundo: a literatura e tantos temas afins. A variação para nossa função. Com suas dificuldades é questão aprimorar-se. Entre o assustador e o excitante a escola ainda de pé, pois existem sonhos. E trabalho. Somos como piratas em desejos. Inspiramo-nos para inspirar o outro. Garimpagem sem fim.
O livro descansa em promessas. As crianças de branco dão lugar ao esquecido. Achego-me a leve gosto de fantasia, de encantado. Encontro nos caminhos de escola o acolhimento do melhor. De coração que deixa a palavra correr como um veio, aberto aos céus, salpicado em primaveras. Haverá luzir de abraços, sorrisos em pequenas conversas. Aprumo melhor para contar-me.
Lembrei-me agorinha de Itacarambi, debruada pelo São Francisco, com brilho da lua e de histórias vividas, decalcadas em sua planície de prata. Tudo à frente de pequenino sonho. Em meio a labirintos, véus de poeira e a garimpagem. O inusitado vislumbra-se de perseguir prova prazerosa. Um desassossego impertinente, quase feliz. Uma preciosidade a preço de banana. O que poderia instigar a curiosidade para inventar? Quanto se revela na possibilidade enredada? Tudo se entrega ao movimento do tempo de fazer, gerar acontecimentos. Objetos únicos, guardiões do criar laços em palavras. Marcaremos outras vidas leitoras? Assim é redescobrir alegrias.
Mais outra andança. A árido inverno inventado a poeira carmim e a sol que sagaraneei por Janaúba. Como brincadeira de primeiras histórias. Querenças. Fiquei namoradeiro, às margens de uma alegriazinha estalagem, querendo ser como os meninos de lá, sabe? Mas eles todos se vivem numa das terceiras margens dos rios, sei não. Nenhum, nenhuma deixava de transparecer olhos de lua de mel, amativos que são, puramente de andamentos da roça. De estrelas e vagalumes. De raiz, a benfazeja ao gênero humano. Fiquei em idílio, pois dois dias em corpo de baile, viu? Digo pouco, melhor seria mesmo o contar. Como os meninos e meninas de lá. Da Comunidade Jatobá. Tudo a galho seco, pouca florada na espera de proveitosas águas. E gado tocado vagaroso com alguma cantoria. E o ar vestido em sépia. Minha alma lavra para sempre escondidinhas as cores de paraísos de lá. E horta, rapadura e mel. E tantos mais, aromas de um quase desconhecido. E, sobretudo os causos, mais dos de assombrações acordando memórias dos que se vão num primeiro talvez. Mas deixam. Semeaduras. Na voz trabalhada com instinto, nos gestos de lançar na roda do entre todos, o resgate valoroso para nunca se perder de encantamentos. Nem sabia que iria trazer aos olhos lobisomens, conversas de bois, aparições fantasmagóricas pelo contar dos alunos de tantas idades que tem só. O indescoberto da gramática que não desperdiça imaginar.
E lá vieram tantos olhares borboletas salpicando das carteiras e um pequeno depois de palavras sem fronteiras. Só coração sem temores. Cadê a frase para salvar esse encantamento, essa graça, esse medo escondido em quem morre amanhã? Quase nada é a nossa condição. Tanta fartura de existir. Só de afeto e de presenciar os vividos. Tudo era um só. Amorosidades. Irmãos sem ser de sangue, mas de primeiro querer, serão de todas nossas promessas. Nossos fios de fogo. Atalhos. E o sinal para se buscar sempre.
Agora estou em branco. Fisgo-me por alguma frase para me encantar de cenário povoando em recordação que não me sai. Sorrio fechado, sem enigmas e trovões. Minha matéria é constante e elas fazem parte dela. Engraço-me. Só assim podia ser.
Sei que esta história não terá fim, pois semeada em palavras pelas brumas. Nas lacunas e nos silêncios adentrarão para ganhar em profundezas. Por cima há sempre um abraço guardado em uma nova estação. Volto das palavras, do sanfoneiro que leve fui. Isso chegou a existir? Como quem voa pelo espaço e vira poeira marrom e afluente de rio marejado posso ir em sonho. Em interlúdios de brancos, pelos cantos mineiros que se revelarão como primeirinha chuva miúda. Sob um mesmo céu.
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Antonio Gil Neto
"Me dá um carinho pela raça humana. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca". (Clarice Lispector)
Enlaço o livro nas mãos. No manuseio fluem as imagens: da lombada e a interna. Clarice flutua no azul em preto e branco. Pelas palavras florescem Clarices. Por elas a captura possível da vida e obra. Não li todos os livros de Clarice, mas quase todas as suas biografias. Cultivo esse rostinho especial. Mas, pelo mistério natural, a simplicidade original e extremada espontaneidade com a vida e com as palavras Clarice ressoa como intensificada preferência. Ler sobre ela torna nosso desejo fortalecido para entrar em sintonias com sua obra. No saber sobre ela, em reviver, temos amor renascido. Pela pessoa e seu ofício. Sempre.
É nossa íntima esfinge. E ao inteiro dispor em desvelamentos. Haverá, depois do esmiuçar de algum escrito, questionamentos, perguntas, explicações plausíveis, tão próprias do universo clariceano. Haverá alguma lacuna, um obscuro solene e algum desejo pronto para pendurar em algum destino. Por certo, o inacabado. Intenso como Clarice.
Ah! Ler por prazer! Como se fosse único dever. Como pássaros libertinos. Ou revoar das borboletas imaginadas.Bailarinas. Na escola junta-se às horas sérias de desenhar os futuros e os sucessos. Inseparáveis, dividem as dúvidas das aprendizagem, as curiosidades das tarefas, os interesses das descobertas, os castigos e prêmios de pequenas malandragens. O que nos dará chances?
Poderá haver chegança, outros encontros. Ainda haverá o dar as mãos para tantos meninos moleques. Do passado pequeninas tramas, balançantes. Juntos assegurarão o brilho presente. Falarão mineiramente de "coisas bonitas que nunca mais deixarão de existir". Assim , alunos e professores se abrem para alguma jornada literária. Ouço já alegrias tantas. E novas cores a tingir corações. Mais, outros cantares e tons. Voos. E alguma graça de se inaugurar em esperas felizes.
Com esperança renovada, espanto e cansaço inicia-se viagem de inteira emoção. Dará lugar a reconhecimentos. Quais as cores desse encontro infindos? Onde estarão escondidas as alegrias que virão? Encontros assim ainda se multiplicarão. Pois vibram em olhares de jornadas e brilham para averiguar o mundo de todos nós. Olhares guardadores, de pensar e repensar. De reviver. (Ah, se pudéssemos recolher cada uma das histórias vividas na imensidão desses turbilhões silenciosos!)
O céu avermelhado escurece para depois virar luz novamente. Os fios das tramas do nosso emaranhado se desmancham e retornam a genuíno começar: linha e agulha sempre prontas para um novo bordado. O branco por desenhar. Nova jornada, novo trabalho. E os retornos. Quanto aprendemos juntos e aprenderemos! As descobertas vividas iluminarão próximas aventuras e lidas com as palavras. Que força é essa de eternidade que emerge em nós, mesmo sabendo que o Tempo é presente maior, nosso limite?
Urge exercitar esboços de desapego. Ao avesso do consumismo que impera a cada vez que olhamos para o mundo corroendo os nossos sonhos e desejos podemos escolher usos e ações coletivas. Até que ponto o bem comum é energia vital da escola? Praticar desapego é essência. Livros e palavras ecoam nessas lições.
Cruzo leituras em alegorias: ler a educação. E fico mais que aflito por aqueles que embora moldados pela vida que corre abrupta, ainda não dão conta ter as palavras como algo substantivo em suas vidas.
Logo teremos notebooks e derivados no lugar da lousa, giz e cadernos. Garante-se boa evolução? Sempre haverá momentos de cada geração se transformar e se reestruturar. Esse imprescindível lidar com os tempos e destinos humanos. O necessário para compreender o que está à sua frente. A modernidade tem seus preços, suas tramas.
Muitas vezes trocam-se cartaz, os atores, os papéis. A história é a mesma, como conhecido jogo, sem surpresas. Nas escolas as ladainhas conhecidas. O trocar, o reinaugurar como quem não experimenta o novo. Nova blusa no armário abarrotado de estampas e feitios. Sem escolher mediante o pretendido falta novo impulso que pulsará indefinível, ao léu e num perpetuar. Para que o ritual repleto de ilusões? De promessas a cumprir? Silêncios e algazarras. Mas as vozes fluem e se esvaem com os minutos de cada manhã que passa: esses ponteiros diáfanos de todos os tempos.
Estimulemos a palavra de cada um. Um comentário orientador, um momento profissional, uma experiência iluminada, um lançar de ideias, uma proposta por acontecer, um fato, um modo, um saber, uma cor poética, um sentimento. Enfim nosso lugar comum: a palavra refletida do educador. (Os fios do agora, /Metaforam o amanhã. /Completo, seguro. /Palavra artesã./ E fiam no escuro: /Pecado e maçã.)
Será a Escola sem trancas, senhas, aparatos eletrônicos? Livre para as inteligências humanas, uma praça de encantamentos. Um lugar de constante nascimento dos livros, do reconhecimento de um autor. Esse desabrochar em atos de escrever a vida para o outro. Alicerce profundo.
Em brinquedos da memória iluminamos passagens genuínas de nossa trajetória. Nelas, as palavras. Refulgem e rebrilham no agora paisagens, boniteza de reinventar. Podemos cumprir palavras de conduzir o aluno ao seu projeto. Bons links: livro e computador. Vale jogar com palavras. Na tela ou na página, prostradas, iluminam-se pelas humanas inteligências. Rompem manhãs.
Como seria o mundo sem leituras? Sem Clarice? Guardo o livro azulado que irá revoar em futuros leitores. Mas os mistérios "de" e "em" Clarice permanecem. Borboleteiam. Esse jogo misterioso e lúdico de desvendar os maravilhosos mistérios da vida que ficam impregnados nas suas próprias palavras.
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Antonio Gil Neto
“Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha”. (F. Pessoa).
A descoberta do fogo, a invenção da roda. E o amor se desvelando infinitamente. Atos e palavras. A humanidade se reinventa. E nós, sobreviventes da geração que emerge das anteriores. Dízima periódica. Até que o mundo não agüente, se mostre sem surpresas em novo dilúvio ou fazendo valer alguma profecia, tudo se move, se atualiza. Presentes e futuros envelhecem à espera de outros tempos novinhos em folha.
Eco da canção mineira: os sonhos não envelhecem. Amor, sentimento primoroso da identidade humana desfia-se e nos desafia na busca da melhor forma de viver. Os problemas sobrevivem na pauta dos dias mais comuns. Mudam de cara, de layout, desfilam na fieira de gerações.
E o escrever, linha d’água da vida, moto contínuo. Oportuno: quantas ocasiões fazem o escritor?Quantas aldeias adormecidas a despertar...
Importante diálogo: o real e a escrita. Suscitam olhares. Ilustram imaginações e se desdobram em reescritas. A inspiração inaugura-se no reflexivo, no burilar, na escolha do tom. Poemas não florescerão da ponta dos dedos. A exposição: o mural de palavras que guarda imagens. Algo a investir, surpreender! Se a imagem vale por mil palavras, um olhar apurado vale por um infinito. Com a palavra o olhar vira busca e resgate. Capta as emoções primordiais. O movimento se descongela e se corporifica. Tela, papel a arte realizada. Vale uma crônica? Um poema? Entre linguagens, sem predomínios ou muros, a vistoria do olhar-palavra intensifica o jogo do criar. Uma imagem aponta. Instiga, alimenta, sugere, amplia, convida, propõe, projeta. A crônica evidencia o olhar. O poema acorda em corte de pedras. Há após leituras e escolhas. Mas há o projeto: o texto. Outro suscitar provocativo. Fios de meada pedagógica, acredito.
Esse solitário ofício da escrita. Mostrar costuras, avessos, transparências de tirar o fôlego. Cavernas. Para ser solidário.
Um filme perturbador nos causa incômodos dos mais diversos. No abrir os olhos as palavras que guardam repensar. Talvez dados alarmantes. Ou a borda da história que nos retrata. Atentos para o perigo de generalizar ou achar.( As ONGs são poços de más intenções?) Das provocações à imprescindível reflexão. Cenários se desvelam nas palavras: generosidade ou exploração se formatam para o jogo leitor. Uma proposta ácida, provocadora pode nos atrair. Saímos do pés atrás para ficar diante do estarrecido que aflora. Nosso olhar disponível a descobrir. A desvelar atitudes, valores ou descaminhos. Aqui é que entra mais um fio do nosso fazer, outra proposta.
Do lado educador aposto em lugares menores, nada alardeantes, estridentes: o imprescindível para que o livro caia em algum redemoinho humano e aconteça de vez. Que aconteça silenciosamente a partir de pequenos pontos disparadores que alarguem sonhos e contemplem desejos. Que as palavras das páginas virem vitrines, cortinas que se abrem para despertar os desvios dos mais curiosos. Outro fio: estratégias das tantas brincadeiras íntimas com as palavras. O lugar do livro é na casa de cada um: no seu cotidiano, chuva e sol. Isto e aquilo. No lugar onde a gente é. No quartinho, na rede, na tenda. No tempo e espaço disponíveis. Sempre. Moram com a gente, como pessoas queridas. Alimento e beleza. Disponíveis ao nosso desejo particular. Não fala por si. É apenas possibilidade generosa. Por ele um enveredar pela fantasia aos sabores de uma voz convidativa e inebriante. Que o livro seja amoroso objeto que nos acompanhe na vida. Que a reinvente, que a revigore.
Mas, lugar de livro morar com necessária certeza é na escola. Objeto de primeira necessidade, consumível, perecível. Após sinfonia de dedos vorazes. pelo saracotear das travessuras leitoras fica sujeito a se autodestruir. Nela o impulsionar de movimentos leitores: caixote, carriola ou carrinho de supermercado. Que circule, povoe mãos, desperte olhares. Ei-los, os livros, numa cesta sob as árvores dispostos aos desejos pequenos ou armazenados em lombo de burro, caixeiro-viajante, a circular pela comunidade escolar à cata de novos leitores, ampliando e criando novos espaços de respiro. Ah, esses inconfundíveis companheiros.! Sobretudo nas salas de aula, lugar nobre e principal! Ali que mora a potencial mediação. Ali vivem os atores das leituras, cúmplices de um projeto tramado em palavras de se aprimorar a cada dia. E o palco e a ação. Sugeridos, experimentados, escolhidos, acolhidos, partilhados pelo gosto de espera e dos olhares a despertar. A experenciar. Sopros de vida. Com liberdade e alegrias. Sem alardes.
Há muito para falar? Suponho que alguém que nem tenha ido a alguma Bienal do Livro possa nos dizer sobre esse lugar e sobre o papel de cada um de nós na vida dos livros. Neles, o plural do Universo. E o particular e genuíno.Estações de tantas luzes. Eterna exposição. Quando nele nos adentramos temos o coração num pulsar de solenes expectativas. O farol de muitos e outros detalhes a saber, a descobrir. Nas breves despedidas saímos aturdidos, felizes, plenamente acolhidos pela poesia que guarda todos e cada um de nós.
Simples e rasteiro, somos sustentados pelos nossos sonhos. Talvez pela ínfima possibilidade em realizá-los. E assim continuar alimentando a máquina humana de sonhar e viver.
Em delicada beleza as palavras se instalam. Em melancolias ou alegrias. Mariposas etéreas se debatem na busca de luz, esse tecido magnífico. A poesia das palavras alinhadas gera sons. Provocam ondas a circular pela eternidade mesmo depois de não mais serem ouvidas. A poesia e a eterna ligação com o mundo. Nos leva de volta, nos permanece. E nos leva além. Em aprofundamentos, como as mais divinas forças.O fio do corte.
Penso que suscitarei assuntos para discussão. Penso que haverá modos de contar narrativas dos filmes, de estar presente numa crônica, de cantar os versos ao ar. Penso que haverá material humano estimulador às leituras e às produções em palavras. Quem sabe você não se enverede a investigar algo para nos contar? No mais, é deleite e diversão, não é?
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Antonio Gil Neto
Começo esse texto sobre filmes e livros com a questão-título quase óbvia, motivadora às vezes de algumas das nossas conversas. Geralmente consideramos o livro melhor que o filme. Por várias razões: sua ideia original, podemos ser donos do próprio conduzir em nosso particular tempo de leituras, percebemos as sutilezas e os detalhes, usamos de sobra a imaginação, temos dose ampla de criar e sentir uma aura de co-autoria. E por aí vai.
Vou direto ao assunto, sem fugir da intenção. Vi o filme e li o livro. Fiquei por um tempo na dúvida sobre qual seria melhor: o original, a motivação, a inspiração ou o seu produto recriado em 3D, com direito a sentir o sonho mais de perto e em movimento, quase real. Decidi agorinha e me lanço à apreciação de vocês. Livro ou filme. Ou, filme e livro. Tanto faz. O importante é - em palavras ou no mover da sétima arte - nos adentrarmos ao mundo dos sonhos a que temos pleno direito.
A história que se corporifica em ambos é a de Hugo Cabret, menino órfão que vive escondido na central de trem de Paris dos anos 1930. Esgueira - se por passagens secretas, faz pequenos roubos para sobreviver e para consertar seu enigmático autômato. Sem ser percebido, cuida dos gigantescos relógios da estação: escuta seus compassos, observa os enormes ponteiros que dançam meticulosamente, responsabiliza-se pelo funcionamento deles. A sua sobrevivência depende do anonimato. Tenta se manter invisível. Guarda um segredo que é posto em risco quando o severo dono da loja de brinquedos da estação e sua afilhada Isabelle cruzam o seu caminho. Ainda posso dizer de incentivo imaginoso que um desenho enigmático, um caderno valioso, uma chave roubada e uma figura mecânica - herança do pai de Hugo - estão no centro da imprevisível história.
O livro inspirador é “A Invenção de Hugo Cabret”, de Brian Selznick, publicado pelas Edições SM. Ao folheá-lo já podemos nos imaginar sentado no escuro à espera do início do filme. O livro com mais de 500 páginas, traz muitas ilustrações do autor – muito próximas de um storyboard – além de reproduções fotográficas históricas.
Já em “A Invenção de Hugo Cabret,” filme de Martin Scorsese baseado no livro, é claro, a trama se dinamiza quando Hugo se encontra com Isabelle. Os dois jovens passam a investigar um mistério sobre o passado que cruzam suas vidas. Aos poucos personagens e tramas gravitam aos nossos olhos e imaginação para nos contar sobre a arte do cinema. Mais que isso: a influência de Georges Méliès sobre ela.
O longa nos leva a uma sutil aventura do passado cinematográfico, desde a invenção do cinematógrafo pelos Irmãos Lumière em 1895 - que achavam que sua traquinagem teria um interesse técnico passageiro como forma de divulgação da sua fábrica de fotografia - até os longas mais complexos para aquela época.
O filme nos diz brilhantemente que foi preciso outro francês, Georges Méliès, para dar sentido artístico à descoberta dos Lumière. Méliès vislumbrou o bom futuro daquela invenção. Com sua câmera e estúdio construído no fundo de um jardim realizou seus primeiros filmes. Todo seu talento de ilusionista se encaixa na nova técnica. Cenários de papelão e tecido, luz do dia, trajes e cenários mirabolantes, além de colorir as imagens em preto e branco foram especialidades do então mágico Georges. Suas trucagens cinematográficas bebem da literatura: Julio Verne, Grimm, Perrault. Assim é Méliès o primeiro cineasta da história. Produziu e dirigiu cerca de 500 filmes, de 1896 a 1912. Ele descobriu que o cinema poderia recriar sonhos e mostrá-los ao espectador. Este é aspecto fundamental da trama.
Penso que o cinema é arte de manipular, enganar, iludir. Bom demais. Ele nos envolve em uma história ou situação que num determinado tempo nos é palpável, real, por mais absurda que possa ser. É mesmo poderosa a sétima arte em materializer sonhos, através da manipulação de imagens em movimentos mágicos e ilusionistas.
Integram-se à ficção e em plena harmonia referências a filmes antigos. Testemunhamos em meio ao 3D “A Chegada do Trem à Estação”, um dos primeiros filmes feitos pelos irmãos Lumière que causou pleno frisson na belle époque parisiense. E mais: várias citações de filmes mudos: “Luzes da Cidade”, de Chaplin, a clássica cena de Harold Lloyd pendurado no relógio em Safety Last! e “Viagem à Lua”, o conhecido filme de Méliès. Quem diria que 116 anos depois da primeira exibição de um trem vindo em direção à plateia, agora inserida numa produção em 3D ainda seria capaz de causar comoção pela ilusão momentânea da imagem em movimento?
Sem querer ser crítico de cinema sinto no meu lado espectador a brilhante direção de Scorsese. A meu ver ele tece um resgate da figura de Méliès, com toques de um filme pensado para o público infanto-juvenil. Tudo se desamarra de uma seriedade para brincar de fazer arte e cinema. É uma celebração. Temos um Scorsese diferente, outra cor e sabor e que se deixa levar pelo 3D como brinquedo novo. Este filme é indicado para cinéfilos e curiosos de todas as idades. É uma verdadeira aula de cinema!
Concordo com os que dizem que em a “A Invenção de Hugo Cabret” temos talvez a melhor utilização de 3D até agora. Prepare-se para deliciosa viagem! Scorsese filmou com câmeras 3D ao invés de simplesmente converter o longa. Usou sabiamente a tecnologia de sobreposição de camadas, proporcionando uma experiência de imersão fantástica. No escurinho do cinema, bem à frente dos famigerados óculos escuros, dançam e pulsam lindamente em nós elementos etéreos: fumaça, vapor, neve ou simplesmente poeira da loja de brinquedos. E por entre as sutilezas de contar a história de Hugo conta a história do cinema. Somos conduzidos pelos olhos de um menino. Realidade e fantasia se mesclam. Somos espectador em sonhos.
Livro e filme realizam testemunho eterno de amor pelo cinema. Uma das frases de Méliès no filme é "Venham e sonhem comigo". Acho que podemos obedecer em ambos os casos. Teremos belos momentos em nossas vidas. Sobretudo os que amam o livro e o cinema e toda a sua arte.
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Antonio Gil Neto
“Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos.(...) “Aquele rio / é espesso / como o real mais espesso.(...)”
(João Cabral de Melo Neto)
Na tela João Cabral um tanto quanto jovem, risonho. Atrás, como se acabado de escrever na parede, letras de brilho de faca e sanguínea frase que dá títulos, vislumbres. Rabiscos de poeta em possível. Um poema por dia. Tecendo manhãs.
E assim se faz visitas. Virtualmente? Quem sabe de bom grado e de coração confesso. Presente no imaginado, toque de perto em olhar. Esse nosso estrangeiro olhar...E um cheiro do fantasioso: objetos, cenários de singela vida. Tantos Severinos poetas! Por hora adentrar-se em memórias. Outros rios e versos. E lembranças de pedras que nos enobrece de raiz e céu.
Lida de chegar, viveza em desvendar palavras é que se começa e se tece na Educação. Os mistérios do fundo do mar em paralelo ao poço de cheirar cola. Entram de imaginação. Mas meninos, se configuram na consistência poética. Fico apostando, uma vez de muitas, em pausa avaliativa, em leitura da mais importante na feitura do humano. Tecido em memória e fantasia, esta lente. E o analisar o tempo. E o que decorre. O que vive tantos meninos? Famílias, escolas, ruas... Poderão ser modificados por encontros transformadores. Que se possa recontar suas vidas como quem conta sobre vidas cidadãs. Sem esconderijos. Agorinha este refrão mineiro: “os sonhos não envelhecem... ”.
Talvez este texto pudesse dar tantas crônicas! Mas vou deixando-as no revés. E o que me leva aqui e agora é o espaço educador. É tempo de oficinas? O Futuro é gênero que se reinaugura. Crônica ou não, nossos afazeres pedagógicos andarão a acontecer que sei. Desenham em silencioso trabalho, em sonho e em melhorar esperanças. Aviões cruzam o céu, quase livres. Feito pássaros emergindo de florestas perdidas. Depois outros mais. E tudo segue nos cronômetros fatais e regularizados. Fico mais a olhar as nuvens embelezando o azul, em eternamente. Poderá esse eterno de nuvens ser prisão? Embalado em filosófico já olharei todas as caras, os transeuntes e os que estão na minha aldeia. Na minha faina. Sigo as linhas. Imerso em céu de íntimas possibilidades. E o por fazer. Por eles e por todos. Nós, humanos possíveis, com direito a viver sob as nuvens. E em estações de pequenos sonhos.
Sempre viro e volto para o preciso pensar o depois. Mais as dificuldades a imaginar e a haver. Sinto o tecido de mais possibilidades em meus quereres. Vejo de longe números em meio aos emaranhados. Um cheiro acinzenta o redor. Há mapas de cicatrizes indicando percursos. E a volta? Mas aviões continuam suas procissões no azul. As nuvens, eternamente livres. Os meninos, bagagens. Quem sabe não se veja no desenho plúmbeo um vislumbre de alguma cor. Você tem e quer?
(Guardar uma ideia em página de almanaque como quem guarda flores. E um norte em vermelho. Ah, e um trecho de uma canção!)
No lado da prateada liberdade imenso muro alto. Alto sim, com mil aparatos técnicos de segurança. Ali uma árvore se empina livre, entregue à correnteza do verdor cósmico em estações. Gerara flores para a vida correndo solta. Um vento brando derrubara algumas já vingadas. À curta distância um leito de flores brancas amaina o chão. Generosa cumplicidade. Em algum canto da cidade alguém leria alguma notícia e em outro, um pavonear de adereços, gesto curto e certeiro. Mas, haveriam olhos no reinventado. Cúmplices em fantasias. Sede e fome impulsionando outros movimentos e corpos. Em desenho e dança. Para as próximas os provisórios olhos sagazes. Peixes de luz, se inebriarão dos pequeno delitos amorosos. Ou se traquinarão na mais marota das experiências.
Fecho a porta, duas voltas. E a janela plena para o ar leve da manhã em sintonia com o que sinto ser importante. Dizer deste tema. Lançar ideias que aludem o fazer nas escolas. Não me arrisco a novidades. Às vezes as obviedades e o aparente têm sua importância a olhos navegantes.
Peso um tempo de averiguar tessituras. Ação e esperas. A construção. Nova folha desponta frágil e tenra em campo de árvores altas e fecundas. E em poesia. Sujeitas à intempéries, riscos, agudezas. Mas sabem da quentura, da chuva e do alimento em raiz. Vão reescrevendo-se na composição de ocupar lugar ao sol. Sem luta de forças, queda de braços ou o que separa fracos de fortes. É a arena das possibilidades em palavras. Agulhas em trabalhos que vingam. Fachos, pequenas luzes, gravitando-se. E o luzeiro na imensa escuridão.
Um cheiro de café se espaça pelo ar. Uma nesga de sol desenha no chão da sala o brilho desse dia. A fumacinha da xícara sobe num compasso indolente e as flores alegres no vaso são apenas moldura para a música tomando conta de um breve viver matutino que se foi e se prende nas palavras. E no eterno verde. O piano de Tom e a voz única de Elis tomam conta de tudo.
Paro por aqui. Mas, quero lhe dizer em ligeira esperança palavras que lhe instiguem. Vislumbro sua próxima festa e algum surpresar na sua visita à poesia. E agora só boas portas e janelas abertas. Vamos brindar pelo novo dia.
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