
Antonio Gil Neto
Uma década já se passou desde que Paraty sediou a primeira Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, tradicionalmente marcada por eventos ligados à literatura pela homenagem a escritores do nosso renomado cenário literário.
De 2003 até hoje a FLIP cresceu em números, prestígio e diversidade de eventos nos seus vários espaços. Consolidou-se. Neste ano - de 4 a 8 de junho - comemora os seus dez anos de existência. De belas realizações em prol da leitura e literatura.
Sabemos que a programação será rica, intensa, suas marcas. Que acontecerão debates com escritores como Javier Cercas, Stephen Greenblatt, Annalena McAfee e João Ubaldo Ribeiro. Novos nomes estarão em festa: o libanês Amin Maalouf, o colombiano Juan Gabriel Vásquez e o inglês Hanif Kureishi, um dos autores que já participaram da Flip e voltam para celebrar. Vencedora do Prêmio Pulitzer em 2011, Jennifer Egan estará pela primeira vez dividindo a mesa “Pelos olhos do outro” com o inglês Ian McEwan, que retorna e lança seu novo romance.
Há outros destaques estrangeiros: o americano Jonathan Franzen, o francês J. M. Le Clézio, ganhador do Nobel de Literatura em 2008, e o poeta sírio Adonis. Também não faltarão brasileiros cativos e os que ainda não participaram da Flip: Rubens Figueiredo, Altair Martins, André de Leones, Carpinejar e João Anzanello Carrascoza.
Vale destacar que a "Casa da Cultura" um dos espaços onde questões da literatura serão discutidas abrigará uma variedade de formatos: leitura de livros, apresentação de filmes, peças teatrais e exposições.
Neste nosso encontro de todas as semanas é oportuno comentarmos sobre o importante evento. Igualmente importante é estarmos antenados. Melhor dizendo, saber de leitura e do que corre pelo mundo que se liga ao nosso fazer profissional: o ensino da leitura, da literatura, matéria vital em Educação. Talvez merecesse maior espaço e importância em nossas escolas, em nossos cotidianos curriculares. Mas, isso poderá ser uma outra conversa…
Sabemos que não é todo mundo que irá de corpo, olhares e ouvidos presentes ao evento literário na ordem do dia. Muitos de nós ficamos viajando em palavras, sonhando talvez com leve esperança de numa próxima edição estarmos perambulando pelas ruas cambaleantes de Paraty, essa cidade que renasce em poesia e arte a cada início de julho.
Outro mote mais que importante para a nossa conversa emprestada da FLIP é que neste ano o homenageado será um dos mais amados poetas do nosso país: o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Talvez o mais lido, o mais conhecido, o que mais toca a nossa modernidade pairando na rosa dos ventos. Quem não reconhece um trecho de Drummond? É difícil não encontrarmos quem não tenha na memória afetiva um verso drummodiano! Você já buscou o seu? Agora?
Pois bem, vamos vislumbrando aqui e antecipadamente o que estará acontecendo por lá, nos céus de Paraty com tantos nomes, estrelas, lançamentos e sobretudo tantos amantes da literatura. Como serão os acontecimentos que darão luz merecedora a Drummond?
Conferindo a vasta programação sabemos: Luis Fernando Verissimo começará falando sobre o valor da literatura, razão de ser da festa. Silviano Santiago e Antonio Cicero farão conferência sobre Drummond, cujo nascimento completa 110 anos em outubro. Com leitura detalhada de um de seus poemas, Santiago e Cicero descrevem traços fundamentais da obra do homenageado.
Na Casa da Cultura acontecerá a apresentação da peça “Cartas de Maria Julieta e Carlos Drummond de Andrade”, de Sura Berditchevsky. Também se inaugura uma exposição: “Faces de Drummond - O Poeta do Avesso”. Fora o lançamento de livros. De Drummond está previsto um livro praticamente desconhecido, escrito na sua juventude e publicado artesanalmente: ”Os 25 Poemas da Triste Alegria”.
Que vontade de estar lá, não é? Talvez possamos aqui costurar em ideias e palavras a nossa mais que simples homenagem ao nosso admirável poeta imaginando livre do que poderá circular pelos painéis da FLIP. Nasce assim uma vontade firme de relembrar Drummond…
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"Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche da vida." (Alguma Poesia)
"No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão"(Viagem na Família)
"E eu não sabia que minha história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé." (Alguma Poesia)
"O eco, no caminho/ entre a cidade e a fazenda, / é no fundo de mim que me responde". (Boitempo)
"É talvez o menino/ suspenso na memória."(Rosa do Povo)
Relembrar Drummond…. Nascido em Itabira, Minas Gerais em 1902, fruto de uma família tradicional de fazendeiros. Os estudos em Belo Horizonte e Nova Friburgo de onde foi expulso por "insubordinação mental", pode? De novo, Belo Horizonte. Sem saber, começa a carreira de escritor no Diário de Minas. Sabido e cobrado, a insistência familiar para um diploma. Formado em farmácia em Ouro Preto funda com outros escritores A Revista de vida breve. Em 34, no serviço público, transfere-se para o Rio de Janeiro, sua morada. Na então capital, chefe de gabinete do ministro da Educação até 45. Depois trabalha no Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Aposenta-se em 62. Mas desde 54 foi cronista no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil.
“É o hábito de sofrer, que tanto me diverte, / é doce herança Itabirana."(Sentimento do Mundo).
"Vai, Amorim, sê por mim/ o que jurei e não cumpro./ Fico apenas na moldura do quadro de formatura."(Boitempo).
"Espírito mineiro, circunspecto/ talvez , mas encerrando uma partícula de fogo embriagador,/(…) não me fujas do Rio de Janeiro,/ como a nuvem se afasta e ave se alonga,(…)" (A Vida Passada a Limpo)
Os primeiros livros: Alguma poesia (30) e Brejo das almas (34). A descontração sintática. O poeta domina a individualidade do autor. Há ordem, consolidação, fecundante e contraditória. O passado pesa e o futuro assombra. O poeta mineiro se detém no seu presente transpassado pelo percurso dos homens. O poeta melancólico, cético. No revés, a ironia , o olhar fino para os costumes, a sociedade. Um sabor áspero. Um quê de amargo ou desencanto. E o requinte construtivo. O rigor, obsessivo? O poeta trabalha com o tempo. Nele resplandece em cotidiano, seu subjetivo transpostos para os Sentimento do mundo (40), José (42) e A rosa do povo (45). Lança-se ao contemporâneo, à experiência coletiva. Solidariza-se, vislumbra na luta a explicitarão da mais íntima apreensão para com a vida. Suas obras-primas. E a plena maturidade poética.
"Eu preparo uma canção/que faça acordar os homens/ e adormecer as crianças." (Novos Poemas)
"E agora, José?/ sua doce palavra,/seu instante de febre/sua gula e jejum,(…)"('José')
"No meio do caminho tinha uma pedra". ('No Meio do Caminho')
"Que pode uma criatura senão,/ entre criaturas , amar?" (Claro Enigma)
''Lutar com palavras/ é luta mais vã."('Jose')
Suas obras ganham o mundo, outras línguas. E vastidão de leitores, leituras. Seu poder natural de ofício, a influência criadora na literatura brasileira. Sua prosa e sua poesia, sobretudo.
Admiração: ampla e irrestrita, de obras e de homem escritor.
'O tempo é a minha matéria,/ o tempo presente, os homens presentes,/ a vida presente."(Sentimento do Mundo)
"Penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero," (A Rosa do Povo)
"Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo, "(Sentimento do Mundo)
Em 17 de agosto de 87, alguns poucos dias após a morte de sua única filha, morre no Rio de Janeiro.
"Mas as coisas findas,/ muito mais que lindas,/ essas ficarão." (Claro Enigma)
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Nós, por aqui, na nossa pracinha virtual, em coro feito de estrondos silenciosos desses breves encontros leitores, fazemos nossa homenagem: reviver Drummond…
Perceba como os versos espalhados, entrecruzados nas palavras que resumem a trajetória, desenham por si só em nosso imaginário o sentir sua vida tão poética! Um pouco de Drummond! Releia cada verso novamente e veja se não nos reencontramos com o poeta que adormece em nossa memória imaginativa!
Mas, como sempre, ando a pensar mil coisas... Uma delas falo aqui. O lugar da escola é lugar de literatura. É sobretudo o lugar de se lidar com a poesia. E, cá entre nós, a verdadeira homenagem a Drummond ,que se transfigura em bem para os nossos alunos, é lidar com a sua poesia. Também de outros poetas de boa palavra. Sei que muitos já fazem, silenciosamente. Se puder, conte algo sobre isso que é muito oportuno em tempos de FLIP e de homenagens literárias. Conte das suas homenagens particulares que por aqui podem ganhar eco.
Vou esperando…Quem sabe no ano que vem não estaremos sob os céus de Paraty, nas suas ruas sinuosas, marcando presença para mais um homenageado! Por ora, salve a Flip, que faz do ser escritor e do ser leitor razões para uma festa! E salve o nosso blog, por fazermos festa tão particular, por trazer algo desconhecido ou encantado para se festejar. E salve Drummond!
* Vale a pena ver este “O Fazendeiro do Ar”. Drummond ao vivo e em cores!