Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o Futuro

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Blog do Gil

1.

 

AQUELE DOCE BEIJO NAQUELE SILÊNCIO AMOROSO.

 

Antonio Gil Neto

 

(…) domados pelo afeto,/ usaremos bem mais a palavra como beijo. (Carmen Moreno).

 

Sempre me cubro do meu silêncio, cúmplice das minhas falhas. Das minhas artimanhas.

Não me fale nada.

Sem murmúrios, promessas, olhares vazios de laranja com sal. Nem um sopro, nem uma vogal saída da sua sutil existência alardeada de felicidades irão me amparar nesses avessos ao tempo.

Nem sei como enfrentar esse quase não existir que acolho como dádiva única. Espero de esperança amorosa. Há uma água forte que me desenha e me enclausura em migalhas. Quase violetas e um pouco de mel. Assim tenho meus anteparos. Sou sempre visitante de mim mesmo. Um forasteiro que espreita e se engraça. Sobretudo nessa horas de íntimas revelações.

Nem quero abrir a minha boca. Pressinto que ao cantar algo emoldurado pelas palavras, algo de sentir e passear ao véu do querer minha alma poderá quebrar-se por inteiro.

Mas o açúcar das letras pode tecer-se em fel, caso necessário. O melhor espera nas frases e mais ainda nas atitudes. Você sabe sem ameaças.

Quanto vale um beijo amoroso desses que só o cupido guarda para a gente a sete chaves?

É que no silêncio, aprendo. Vou aprendendo-me. Inauguro-me nas resistências e abro trilhas de descobrir nos mal feitos. Me construo nesse vulcão, nas labaredas das palavras silenciosas que se entregam ao fluir das emoções, mas que se apagam no brilho dos seus olhos. No espelho do vazio. Posso reconstruir-me assim. O que vivo é meu andaime. Para coexistir, conviver, receber o fluxo de algum beijo que amorece nos lábios de encantar almas. E essa densidade não me pertence.

Tenso, sigo-me. No eco frouxo preciso calar. Lua minguante, perfume esquecido de jasmim ao léu.

E esse silêncio  serpenteia em mim, tingindo minhas veias.  Vai dilacerando as minhas palavras.

A madrugada lateja em minha pele. Desvisto-me os olhos dessa mesma paisagem sempre noturna. Cubro-me de folículos de devaneios e pequeninos sonhos, quase infantis. Os seus lábios invadem meu sono acordado, cobrem-me de tons avermelhados.

Um cheiro de manga amadurecida em calores me enjoa, me enoja. Da janela acompanho o voo salpicado de uma pomba a fazer seu ninho ininterrupto. Quanto mais as dificuldades, mais o seu fazer meticuloso. O destino a se cumprir por nadas. O sopro da vida. Partículas da natureza morta vão virando ninho com o tecer do bico. O que acolherá vida, abrigará o outro. Ela não precisará de algum beijo para existir.

Talvez uma finissima  forma de amar.

 

 

Antonio Gil Neto

 

O que são em nós - de dentro - as palavras?

O que almejam nossos escritos?

Da língua travada ou esperta

O que digo

Estranho, incerto

Ou alerta

Antigo e distante

Olhares oblíquos, de perto:

Grãos de areia, seixos, veios, velas,

Facas cortantes.

Delas,

Amantes.


Dias passarão.

Todos os dias,

Melodias, rimas e esses versos perdidos,

Essas letras minúsculas,

Carícias e silabas refeitas,

Em movimentos,

Abrigos.

As cerziduras

O algo ainda por dizer

Novas feituras.

Tecidos,

Colheitas.

 

Delicadas de amores, as palavras nos acalantam,

Inflamam, nos acalmam,

Em todas as horas felizes, infelizes

Prósperas, carentes.

Somos frases que nos iluminam de tantos longes

Sempre presentes.

 

Ah, palavra!

E os dias...

Respirar ar o mais colorido,

O sim e não em mesmo tom.

Quero cantar,

Cantá-la, entoá-la breve e brisa,

Mais o que encanta, queima,

Repetindo-se em novo tema

Sem pranto, sem riso

Puro afeto,

Poema.

 

Fazemo-nos pela palavra,

Evaporemo-nos de suas memórias,

Paisagens, nascimentos,

Tantos anos,

Histórias, novos momentos.

Tréguas, caminhos,

Essa rosa-dos-ventos.


Somos forjados em alma,

Pela palavra,

Seus azuis,

Luzes e sombras

Seus natais e anos bons.

 

Eis as promessas,

A saga.

Olhos descansam,

Mãos submersas

Resgatam

O que afaga.

 


Dá um dó e dói

Se aninha, transborda

Em nós mora.

Em sintaxe, em sentimentos

Delicadamente nos borda

Aflora.

 

 

Delirantes,

Somos mar de corpos.

O agora.

 


Nesses tempos de festejos para o novo ano, mais um pouco do poema para que vocês se inspirem e também deixem suas palavras, seus versos recados.

Feliz 2013!

 

 

Antonio Gil Neto

 

Vivo desses dizeres,

Precisos, secos, tangíveis,

Versos do agora,

Cantigas que afloram,

Feito presentes, valias,

Quereres.

Pequenas alegrias,

Pequeninas,

Dançam bailarinas e se enlaçam

Na liquidez dos abraços.

 

Mas, há os feitos :

Exercícios da aprendizagem,

Jogos de busca,

Acalantos,

Linguagem.

O aventurar-se da viveza,

A inventiva,

Manobras de Arte,

Belezas.

 

Esses silêncios ásperos,

Encantos.

Tantos percalços,

E bons dias,

Idas e vindas,

Senões,

Vigílias.

 

Ah, essas breves felicidades florescidas de pouco se ver!

Ah esses roteiros repetidos!

 

Ligo as luzes coloridas desse dezembro.

Beijo o menino esculpido na mini manjedoura.

Há tantas luas por aqui,

Tantas rosas, águas e pedras,

Colibris.

Ouço chamados,

Timbres.

Sinto a flora obscura

E o tempo,

Seu frescor de frutos abertos.

Pressinto convites, insetos.

 

Me assombra o lumiar, a Natureza:

Andorinhas, arco-íris, borboletas.

A manga rosa, o limão, a gardênia

Os salmos, latidos, a incerteza,

Moscas,

A correnteza.

 

À margem das palavras,

Nós mesmos,

Feito frases de herança,

Raiz,

Esperança.

 

Brilham em mim todos os dezembros.

Voarão para os janeiros,

Povoarão sonhos,

Cores livres, madrugada.

Brincarão novamente de ser,

Ou quase nada.

 

Que amor é esse que paira sempre presente?

Que clamor é esse todo nosso,

Esparso de amores ausentes?

O que me iluminará depois da noite feliz

O que me guiará em promessas

Do que sempre quis?

 

 

Ah, esse amor que brilha o ar,

Esse arfar, esse som,

Que nos respira, nos refaz a cada gesto nunca feito,

E esse afeto,

Enredado em cada peito,

Abraços, tons,

Em cada olhar de janeiro

Efeito de todos dezembros,

Tantos anos bons.

 

Mas há os brilhos de abril,

As águas de março, as flores de maio,

De julho, o frio.

Há o sal das feridas,

O canto dos pássaros no morno das tardes,

Estrelas brincantes, crepúsculos em verões,

Há as vozes das folhas, os alardes,

Chuviscos, cheiro de sol e o que arde

Dos melões.

 

Um lampejo de infâncias, essa luz dominical.

Passárgadas, lugares,

Corações.

 

Nesses tempos natalinos esse poeminha para que  vocês se inspirem e também deixem suas palavras, seus versos recados.

Obrigado a cada um de vocês pela presença em olhares. Em palavras.

Feliz Natal!

 

 

Anotações para encerrar um caderno. E começar outro.

Antonio Gil Neto

 

"Preciso do teu silêncio/cúmplice/sobre minhas falhas."(Affonso Romano de Sant'Anna).

Meu brinco brilha. E minha mente.

(Num cantinho do espaço desta página do caderno acabado escrevo estonteantemente o que desabrocha em mim feito afeto. Depois posso ler como algo novo. Inédito. Guardo algo inexplorado dentro de mim. Encoberto sob meus feitos. Com toda a calma e lucidez posso saber desse outro que em mim habita. Se espelha em diálogos tangíveis. Posso começar novo caderno).

Sonho artigos de opinião, revejo memórias alinhavadas de viver impreciso, suspeito. Mas funciono mesmo e mais é nos poemas. A crônica surge, urgente e abrupta, necessária, como um grito branco de importâncias emoldurando esses cotidianos.

Que outros gêneros poderei decifrar com o meu insólito exercício profissional de pura descoberta?

(Um sabiá cala-me e inaugura melodias não ouvidas. Sinto-me acordado pelas palavras em pura poesia).

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Estou a falar comigo sobre o que vivo agora. Por que guardo essas perguntas quase sem respostas? Melhor me dizendo : estarei aberto para outras respostas como intervalos da reflexão? Se pudesse  me felicitaria pela minha tranquilidade, disposição quase generosa. Pelo meu trabalho que cadencia no afeto e no silêncio do dizível. Inauguro algum sentimento que de mim brota, bate no alvo: meus alunos. E volta para mim, lâmina certeira, cheia de vertigens. Sou domado pelo afeto, isso sei. O que ensinei pra valer? O que esses meninos e meninas levarão pela vida afora por conta da minha participação inacabada na vida deles? Será que tenho entusiasmo suficiente para dizer-me, cúmplice dos meus olhos? Mas sempre haverá coisas imperceptíveis, mesmo falando-nos nas mesmas línguas. Há o que a aprender. Sempre. Há a intuição e o construído no convívio. Jogo de raízes e asas. E sempre há o que podemos acolher como algum lance mais impetuoso ou de imprecisa coragem. Quanto estive só, quanto fui parceiro, companheiro, voo e asa, quanto estive com os outros na espera e no tecer juntos? Compreendo de novo as minhas razões, os motivos que nascem do passado e no presente desabrocham em olhar de lupa e minúcias. Tenho meu legado, meu olhar marcante. Linha d'água para o meu refazer. Saberei ou já sei das minhas duas mãos que crepitam e guardam os dedilhados de novas melodias em mim, nascentes desse balançar que transborda, quase feroz de me verificar do avesso e no vazio. Mesmo sozinho creio que sonhamos de diferentes formas esta mesma matéria: a humanidade.

Meu olhar busca encontrar-me nesse sagrado onde estou agora. É o que somos? Um labirinto a se descobrir saídas? Sei que nesse silêncio em turbilhão vou me reinventando. Inauguro-me em outras estações da memória. Mesmo que leve comigo dúvidas e alguma certeza provisória. Isso nem me importa tanto. Esse campo de incertezas e o meu intenso acreditar é o que me move. E me moverá para o que se sucede. Me entregarei ao existir por completo. Em buscas me desenharei no agora e no que está por vir. Serei como alfabeto num parque. Sei que subirei montanhas e algumas palavras explodirão crisálidas. Algumas nascerão poesia.

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(Também sei que flutuo. Flutuarei nessas ideias salpicadas nas palavras arvorejadas neste papel de improviso. O que mesmo essas palavras querem dizer? Ou melhor, o que elas me revelam sem fantasias? Ficarei ao certo com vontade de me entender melhor. E o que farei).

O importante é que fui. Por inteiro. E o que realizei explodido de espera, das minúcias do trabalho. Essa arquitetura de melhorar o mundo. Visitarei estas palavras para acolher outros corações. Outros veios e rios. Terei vontade de me contar mais do que vivi, senti e sonhei pelo tecido dessas palavras que imantam o meu ar. Talvez descubra do que conheço o pouco que sei. Mas o vislumbre do que poderei abrigar em mim. Contenho-me e aguardarei o inusitado dessa minha aventura íntima, tão particular, tão precisa de querer. Há tantos fazendo qualquer coisa. Não será o meu caso. Quero, preciso dessa importância. Não me deparo com o que me obriga as palavras. Terei em absoluto o meu imprevisível para viver? Enquanto muitas mãos se ocupam a enfeitar o corpo, as minhas saberão os lugares para se viver e impregnar as marcas e as histórias. Tenho este estágio de espera fluido. Esse por chegar. Por isso reflito e me sigo. E escrevo. E me espelho nesse escrito que me tange para o melhor, plausível. Ainda bem que danço nesse lugar de saberes e sentimentos! Nele descansam sementes. E algumas estratégias de sermos nós mesmos e o que está em nós rutilado, para construirmo-nos de autor. Muitas vezes até me esqueço. E em português mesmo. Essa chave de toda viagem. Juntos. Corpo e alma, eu e o outro. Por ela posso saber dos múltiplos nós. Esses todos em mim.

(Respiro e me calo um pouco. Recupero-me desse alvoroço interno. A memória me abraça, me embaralha à procura de algum equilíbrio de recuperar horizontes.)

Continuarei me ouvindo com a cautela e a paciência dedilhadas do vivido. Como quem escuta o canto dos pássaros a cada manhã. E pela primeira vez.

 

 

Antonio Gil Neto

“O melhor texto li naquele tempo/Nas paredes, nas pedras, nas pastagens/No azul do azul, lavado pela chuva/No grito das grutas...”(Manoel de Barros)

Não me calo agora. Grito com vocês em canto acordado dos silêncios. Dos vazios de alguma apatia que assolam modernos tempos. Aqui, dos muros de olhar a vida, descortinam-se perenes opiniões. O eco nessa manhã distanciada por calendários e relógios vira rastro. E será tatuagem. No abrupto movimento de seguirmos a vida.

Estou mesmo com vocês. Em lembranças espetadas nesse azul límpido de verão, nesses dias tão comuns. Penso que assim estaremos todos nós. Há sentimento desabrochado, transbordado de intensa promessa. Há o feito: o vivido. Um compromisso por estarmos enlaçados, conectados pelos antagônicos ventos dos pontos de vista. E pelas palavras. Escritas em cores e luz, ouvidas na sintonia dos porquês e refletidas em inaugurar de sonhos. Somos bem perto do lugar dos segredos. E das verdades por acontecer. Como desregrados, de outra gramática, somos dessas de averiguar estranhezas do mundo. E desejá-lo mais justo.

Nesse último lance olímpico da nossa língua, reinventamos nossas vozes em B.H., lugar que recebeu algumas frondosas chuvas e farfalhou de alegria por estarmos juntos em convívio de amizade e sabedorias. Sem contar os lances de experimentarmos as brasilidades e rirmos coletivamente. Mais um admirar cúmplice das luzes natalinas piscando na grande árvore do saguão acolhendo dos olhares curiosos na chegança aos ares sonolentos e até chorosos nas despedidas. Talvez com incerta indignação. Passageira, estimulará novo projeto. O de nos fazermos melhor. Reinventamos sim nosso olhar e nossa voz. E também ensaiamos vindouras atitudes. Com palavras vivas, renascidas de alguma apatia submersa, despertada pela vivacidade da crítica para se alcançar alguma virtude comum.

Ah, pessoal da turma 5! Guardo as lembranças de cada um de vocês! Povoarão a aquarela de se instigar o outro. Pelas tramas de afeto posso dizer que as outras turmas se espelharão aqui em encantos e afinidades. Sei que este feito agendará a memória de futuros feitos. Nos perpetuará em brincantes de sonhar.

Já fecho a cortina do ano. Virão os festejos e a cronologia imperiosa reiniciará tudo em temporadas de novos verões. Agora, há esperançar. Não só de intenções e desejos, sementes. Temos fruto vingado através dessas turmas nos belos dias de lida com a palavra a explorar opiniões. Revejo BH e esses jovens alunos espelhando verdades. Vozes vencedoras de prosseguir. Em atos de firme opinião e garra. Se deles depender, nunca se saberá de apatias, “apatidões” ou coisa assim. Com eles a História se vestirá de luta e fé.

Seriam, outra vez, professores e seus alunos, peregrinos na aventura dos ofícios da autoria. Seria hora de botar a boca no trombone para dizer com todas as letras e bons argumentos sobre a existência ou não de uma apatia da juventude em relação às questões sociais. Seriam articulistas vívidos, ferrenhos a inaugurar algumas das suas opiniões. A paisagem dos semblantes a organizar os escritos festejavam outros amparos e esteios. Fisgariam nuances de atravessar o tempo e transformar as verdades absolutas. Tudo murmuraria outras quimeras latejando o ar. As de incendiar outras palavras. Habitaríamos esses escritos do inesperado que nos faz únicos e iguais. E queredores de justa felicidade.

Revejo o acolhimento, a celebração. Ouço música de gestos e lances de corpo. Revivo o trabalho nos grupos na lida com a palavra. O mote: a roda das questões polêmicas afloradas da vida de cada lugar a engendrar textos: os artigos de opinião.

Depois bom exercício, o preparo para o debate, jogo do aprender. Dele, as vivas vozes em argumentos. Entre sins e nãos teríamos o sustento para o escrito a se inaugurar em nova questão lançada para opinar. Do debate organizado em cores do diverso, as tantas brasilidades e ideais. Eis a trama dos argumentos. “Lanço-me aos meus princípios. Terei autoridade ao emprestar uma voz mais qualificada? Ao mergulhar em evidências, comparações e exemplificações terei mais jeito de mudar o prumo, o já posto? Que tal conduzir esse estranho leitor que quero conquistar com um gostinho de outra causa e consequência?

No meio do mineiro viver a música da chuva. Entre brilhos de sol, o passeio. Do alto, bem do alto, circundado pelas montanhas azuladas o perfil da cidade a inaugurar perspectivas. Pé no chão, cliques de risos e abraços enfeitados pela catedral da Pampulha, lugar guardador de arte e religiosidade para as muitas gerações.

Na volta o debate em ação. Mais que lindo, inusitado. Um debate a desabrochar no debate. Não deu outra. Não apatias. O que haveria era alarido das vozes enraizadas na chama de refletir. Os jovens inventando o presente, essa vida pulsante.

Palavra é também fonte de transformar. Inaugurar convencimentos. (Mesmo em pele onde brilha euforia é preciso semear ares de apatia e assim levar adiante o jogo do convencer.) Inauguraríamos intensos clamores, opiniões. Em arestas, prismas adversos. Mas em acolhimento e debate se viriam a desenhar os dias da amizade em belos horizontes de argumentar para colorir as polêmicas com os tons das descobertas.

Ainda coube momento noturno de música, um cirandear de amizade.

Amanheceu novo exercício de escrita. Do debate coletivo, absorvido por ideias antagônicas e argumentos ímpares, individual repensar. E a possibilidade de modificar o outro. Para melhorar o mundo. Mobilizamo-nos para tecer novo texto desentranhado do estudado. Nova opinião lançada no mar das polêmicas e suas tantas razões. E a escrita começara em silêncio argumentativo. A ela agregara-se a mediação e o pesquisar ganhados do espaço da criação particular fazendo o possível para dizer. O escrito bem dito, como toada nascida do velho alfabeto, inauguraria novo acontecer. De encanto e luz. Vislumbrei o soletrar refletido das gramáticas e dos saberes mais o enveredar pelo vivido para poder tocar algum desavisado coração. Poderíamos instalar um outro pensar no já em movimento?

E houve tempo para os últimos retoques. Cada artigo de opinião na mesa avaliativa mergulhado em aprimoramentos autorais. Soubemos do lapidar as palavras para nossos sonhos ter mais voz. Mais vez e lugar na cabeça do outro. Trabalho duro, inevitável na tarefa do escrever: reler, rever o produzido. Como foram os rascunhos de dar mais consistência ao argumentado?  Sem contar algumas aprendizagens importantes para se levar: um texto é sempre provisório. Pode ser melhorado. O movimento fino, preciso: de retirar aquela palavra, acrescentar outra. Reescrever trechos, ressignificá-lo para a colheita do leitor. Sabido e talhado foi o escrever para ser lido. E verificado os sentido do dizer. Quantas vezes  temos de voltar ao próprio texto para neles imprimir o nosso toque, nosso olhar mais crítico, mais zeloso? Linha d’água da criação. Depois, o destino.

Em toque de desfecho veio o rascunho de livraria enfeitando o cantinho do hotel a desenhar nossos desejos mais íntimos das leituras. Vale dizer que ao pensarmos nela o imaginar seria melhor. Não queiramos um ar mequetrefe de ficarmos à mercê de breves estoques. Mas, livro é livro. Sempre bom. Sempre bem-vindo, sempre. Arranjamos jeitos de nos encontrar com alguns livros e os levarmos para casa com a gente. Enfim a presença desse poderoso objeto a reinar. Ah, se fôssemos um livro! Quanto partilhar com os leitores os segredos mais antigos e secretos. Havia de querer ser, antes de mais nada sempre lido e livre.

E veio a festa. A tradicional ansiedade e de novo os ares daquela velha tristezinha a passarinhar pelos ares festivos. Mais uma vez maior, bruta e frutificada era a alegria bailarina, de comemorar, de sermos abraçados pelo reconhecimento sem fim.

Uns seguirão para Brasília levando a ventura do vivido e a singeleza dos nossos sonhos mais comuns. Mas, já somos todos um fazer possível de letras e amor maior espalhados nos recantos da nossa terra. Somos de puro esperançar. E assim de transformar o que nos acolhe com algum espaço em branco. Nele semearemos as nossas mais preciosas palavras para frutificar amanhãs.

 

 

Antonio Gil Neto

“Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha particular:

Até onde  o meu pequeno lápis poderia alcançar.”(Manoel de Barros)

Em ventos de imaginar o avião deu sua rabeada feito peixe no asfalto. Na palavra, em seu estado poético, peixe vira pássaro. E num zás trás. Palavra é mais ligeira e esperta que a rabeada e o voo. Assim, inauguraríamos temporada breve de enlaçar diversidades na bela capital nordestina. E mais uma vez viveríamos dias de mar. Agora em ares de versos. E de amizade.

No grande hotel, os professores e os jovens alunos seriam mais uma vez andarilhos na aventura dos ofícios da autoria. Melhor ainda, deixar-se-iam levar pelos afazeres poéticos. Os meninos não seriam mais alunos. Seriam poetas debruçadas na murada dos poemas. Escorei-me na admiração e fiquei a fazer pequenos arrulhos do meu imaginar, com joguinhos de adivinhação. Olhares, meneios, sapatos e passos a postos na chegança de gestos e vozes. Os brilhos nos cabelos de quem chega. Continuava de garupa, debrucei-me em gosto leve. (“Vocês me esperavam?”) Parecia que tudo existia para esses poetas de primeira. Ficou tudo claro na abertura, todos juntos em aura de celebração. Era hora de integrar-se ao que viria: dias de conviver com o humano e com poemas. A paisagem do festejo era grande árvore de abrigar pássaros e suas sementes da poesia. Nuances de alegrias e do devagar atravessavam o tempo.

Tudo murmuraria outras quimeras, inauguraria o que se pode de encantamentos com as palavras que se desenhavam em estrofes. (“Porque essa rima me dói fundo? E estes versos soando pandeirinhos dissonantes no pulsar do que agora respiro? E esta imagem no véu da emoção a me reconhecer vivendo nesses versos que latejam no ar?”)

Na aflorada paisagem de pura presença em poesia o que nos tocaria na pauta do existir haveria de ser sem distâncias de imaginar, sentir, encontrar-se. E um vasto campo de povoar sonhos, de se conectar. Habitaríamos os escritos e o inesperado do que nos faz únicos e iguais. Ah, o poetar! Esse ofício de cabeça e mãos que inauguram amplidão e afeto. E nos faz exatamente em desejo de justa felicidade.

O tempo em Fortaleza era lago de luz a vestir os horizontes. O mar emoldurava os jogos de se saber onde terminaria a terra e começariam os sonhos. As nuvens dividiam-se com o céu azul bem azul mais a graça de existir em estado de sempre. Quando ficávamos tão perto desse cenário, do alto do edifício, tudo era precioso de mil alegrias. Abrigados em quase céu de se borboletear, o mar era evocação e cenário. Ainda a ser investigado em pés recém-chegados. Os dias formaram-se de intenso almejado: professores na lida com os poemas e o ensinar; os alunos com a brincadeira das palavras, os versos engendrando poemas. Todos vencedores de morar em álbum de memórias. Vividas e por escrito.

Além do poetar, o criar laços, o rever o aprendido. E mais: um aprumar de esperanças. E de sobra, encantamentos. Pelas palavras nascidas na intimidade de cada um viríamos a pousar nos versos para nos adentrar em outros viveres. E depois, a lágrima enraizada. Ou a mesma em brisa na pele. E de ficarmos impregnados de emoção e verdades. E tudo ficou, ficará. Tocados que fomos. Corpo e palavras. Plenos. Seríamos de abrigar tanto dizeres, renascidos em música e imagens trazidas pelos poemas de cada lugar. Seríamos frutificados por cada aluno e seu poetar. Comungados pelo expressivo, tão particular. Teríamos mais matizes para encompridar a esperança. Teríamos mais asas para atravessar o tempo.

O cata-vento foi assim moinhos de ventos. Em cada criação, em cada poemar. Reinventado, geraria grãos de lançar poesia. Uma grimpa que giraria para criar versos. Eixo e ponteiros ao sabor de sopro poético. Cada cata-vento girou e girou, rodeou e rodeou no eterno brincar com as palavras. As salas foram divertidas, curiosas, mais que alegres.  Combinaram e experimentaram ritmos, vislumbraram os sentidos e efeitos dos sons guardados nas sinfonia dos poemas. No mais foi escrever. O lápis no papel a visitar o pomar dos poemas e deles o uso na escrita com as mãos mui carregadinhas de amor. (“Ah, o nosso nome, aquele que nos identifica, quanta coisa ele guarda, quantas ideias, sonhos, segredos.”  Ah, a palavra nos escrevendo... “Que coisas estarão dentro de cada palavra?”) O certo é que os meninos em Fortaleza naqueles dias azuis, livres, ocupariam lugar de poetas.

No mais, que bom, foram dias de solidário viver. E de conhecemos de perto como revelada aventura o teatro José de Alencar, o Dragão do Mar, seu planetário e seus espaços culturais. E com os pés forasteiros, as ondas do mar. ( “Há uma metáfora do inesquecível”?)

Especial foram as rodas de leitura dos poemas trazidos da raiz. Sei que foi. As vozes abertas rodopiaram pelas salas feito pião de surpresas. Cada sotaque, pura melodiazinha do genuíno a nos enaltecer de belezas. Nosso escutar era o de saborear pássaros em cantorias. Veio o agradecer por ali estarmos. De pertencermos ao que nos humanizava por igual e tanto. (“Será que poderíamos melhorar pelo que nos tocam os poemas? Acredito que sei”.)

Houve hora de reler e reescrever de desusada atenção os originais de primeira vez. Professores e alunos afinariam seu diapasão de olhar os ofícios. (“Que outros olhos dariam sopro de vida aos versos mergulhados no esperar?)

E se fôssemos livro? Brincamos de ser um imaginado. Depois teríamos alguns nas mãos de poder tocar de vez, viver e pertencer ao que nos dariam em encontro. De posse deles, das suas leituras poderíamos ser alguém ainda mais feliz. Na livraria desenhada no bege do hotel os livros se instalariam a nos desejar com seus escritos. Trouxeram versos e palavras amanhecidas para pernoitar em leituras e amanhecer em possíveis sonhos.

E veio a festa com a tradicional ansiedade e aquela tristezinha a passarinhar pelos ares. Novamente e bem maior, frutificada, a alegria bailarina. A de comemorar, de sermos abraçados pelo reconhecimento sem fim.

Tudo já se esvai com os ponteiros dos relógios. Mas, tocados pela poesia, este encantamento ficará para sempre. Vibrará na armazenagem das alegrias. Continuará brilhando como o necessário reconhecimento por tantos feitos silenciosos e que arrebentarão os grãos do futuro.

 

 
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