Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o Futuro


Blog do Gil

despertar mãos que escrevem de selvagens corações.

 

Antonio Gil Neto

 

“Sinto-me tão cansado de sofrer, tão cansado! - algum dia, em alguma parte 


Hei de lançar também as âncoras das promessas 


Mas no meu coração intranquilo não há senão fome e sede”

(in Solilóquio, Vinicius de Moraes)


Imaginando, à deriva, cansado do sempre, busco na estrada algum sol e alguns pontos ensombrados. Caminho devagar e firme no que possa me levar à relva e ao rio. Abrigo-me em cautelas e fazeres que se refazem e se aperfeiçoam em si mesmos. Tenho lembranças renitentes. O que meus alunos esperariam de mim se soubessem ao certo das cores do futuro?

No teatro de mim mesmo não me julgo ou me esbofeteio. Inauguro-me em esperanças, promessas.  Esboço paisagens claras mesmo em caminhos sombrios. Me apego em âncoras no ar. Avermelho-me.

Ignoro alguma presença e me diferencio de mim. Falo sozinho do que me acompanha. Meu monólogo de mim sou eu em voz alta que anuncia outrem. Dialogo com minha alma e com as minhas diferenças. Sem ilusões, com meus intentos. Coerência? Nem preciso dela agora. Mergulho em planos, esboços, em fruição e puro descobrir. Perscruto-me.

Derramo nas cortinas do pensar as páginas, as palavras que me acompanham nessa tarefa de escrever a vida errada, indefinida por linhas retas e objetivas.

Reforço-me do papel de realizar mediações: o escritor, o intérprete e artesão das palavras e o leitor, esse estranho íntimo que mora em nós e nos espelha em luzes sem fim.

Na busca de estreiteza direta e simples com meus alunos, com suas escrituras  me reescrevo em pedagogias renovadas, as que se arejam e fluem para alguma pequena fonte de desejos. Abro-me diante do outro que sou eu.

O que é estar migrante nesse lugar por vezes tão desconfortável? Quem é esse parceiro mais experiente que acompanha essas revelações em palavras, em percursos de pequeninos rios que ainda não atingiram mares e a imensidão? Como me permito ouvinte, essa voz dupla que acompanha e aponta o corte certo, a envergadura, o tom, o viés, o toque sutil e adequado? Quantos leitores guardo em mim? Como posso devolver ao meu aluno de primeira lavra o acesso ao que lhe passa a alma?

Procuro vestir-lhe narrador, nem sempre na primeira pessoa. Mas o que direciona o discurso ao outro em voz própria ou emprestada, e digna e autoral, como se estivesse revelando ao tempo o que não permanece em silêncios?

Particularmente persigo no meu trabalho de ensinar a lida com as palavras esse legítimo recurso de ser protagonista, autor, incendiador de ideias.

Persigo o coração selvagem das mãos que escrevem, escolhem, arranjam e cobrem os sentimentos com palavras em harmonia e fôlego. Afago o observar, a clareza, a lógica, o nexo entre as partes e até mesmo a possibilidade de traduzir a descrição de algo como uma paisagem.

Li ou sonhei e revelo-me em fazer: o que não podemos dizer, podemos escrever. Preciso fazer mais do que é possível ser dito. Os acontecidos se guardam em esperas e saber. Adentro-me no torvelinho das palavras que são nossas: minhas, dos meus alunos e de todos nós.  

Aprofundei-me em originalidades, confrontos e afeto.


 

Antonio Gil Neto


Eis aqui, conforme o prometido no sétimo parágrafo do texto anterior,  os livros de olhos compridos que olham para mim em lombada ou capa. Aventure-se nesse desenho de leituras.




E se Amanhã o Medo, de Ondjaki, Editora Língua Geral Livros

Esse pequeno livro com mais de 15 contos do escritor de Luanda me  surpreende a cada leitura como miniaturas de um imaginário cotidiano e poético, fantástico e às vezes absurdo. Os protagonistas são figuras que refletem os aspectos dramáticos da vida numa serenidade poética que inquieta. Já li a primeira narrativa, A Libélula, três vezes. Simples e surpreendente. A contida história de um encontro fortuito entre um médico e uma mulher que é atraída ao portão da casa do homem pela voz dolente de Adriana Calcanhoto, que o doutor estava a escutar: O mágico cede lugar a uma observação detalhista, miniatural. A atmosfera formada pelos objetos de cena que constrói o cenário vivo no qual a trama, mais banal do que sublime, se desenrola rica de subtextos. Imagino o que ainda lerei.




A contadora de filmes
, de Hernán Rivera Letelier, Editora Cosac Naify

Gostei da capa e, sobretudo, do texto de apresentação do nosso Walter Salles. Quase acabei a história, mais que singela e deliciosa: no final dos anos 50, Maria Margarita é a filha menor de uma família de mineiros, para quem a sessão de cinema dos domingos – única diversão do povoado – é ocasião para descobrir a última obra-prima de Chaplin, as tramas lacrimejantes dos filmes mexicanos, a saia esvoaçante de Marilyn Monroe ou as novas aventuras de John Wayne. Um acidente de trabalho sofrido pelo pai corta a renda familiar pela metade, e um só dos filhos será escolhido para ir ao cinema aos domingos. A missão é contar a história do filme para o resto da família. E, na espécie de concurso promovido pelo pai, Maria Margarita é quem se sai melhor e descobre o talento que tem para narrar. Estou adiando o último capitulo deste livro mais que espetacular. Já voltei trechos e páginas algumas vezes de puro deleite. Não quero abandonar a atmosfera criada. Inspiradora e certeira, que poetiza sobre o poder e a necessidade da imaginação e da ficção. Contar a vida é como contar um sonho ou como contar um filme. É mesmo.




A memória de nossas memória,
Nicole Krauss, Editora Companhia da Letras

Estou apenas no começo. Li precisamente 49 páginas. Fixei numa escrivaninha. A partir dela, histórias de personagens tão diversos se formam. Passei pela memória e pelo esquecimento, esperança e remorso, passado e futuro. É a narrativa de uma reclusa autora nova-iorquina que herda o móvel de um jovem poeta chileno torturado e morto durante a ditadura de Pinochet. Mas já sei que em Londres haverá o viúvo de outra escritora cujo passado ela faz questão de esquecer. E em Jerusalém, um antiquário que sobreviveu à sanha genocida dos nazistas passa boa parte do seu tempo tentando reconstruir, por meio de objetos coletados nos quatro cantos do mundo, o idílio de uma vida familiar há muito desaparecida. Li isso numa resenha antes de chegar nesse momento leitor. Já senti se esboçar a profunda reflexão sobre o que deixamos para trás ao longo da vida. Prosseguirei. Sinto ares de uma melancolia dolorosa a se entranhar nos ossos.




A borra do café
, de Mario Benedetti, Editora Alfaguara

Nesse, ando pela metade. Vou e volto. Leio e releio trechos aqui e acolá. Talvez quisesse ter escrito este texto. Uma joia. Com saudade de algo maravilhoso que já aconteceu e ainda pode acontecer. Às vezes esqueço-o num canto e depois recomeço a ler um trecho que já li, inteiro-me do que já havia sentido e vou adiante. É mais um livro tocante. Parece uma conversa que se estende, tendo a infância como base. O personagem Cláudio percorre os bairros de Montevidéu, em sua iniciação adolescente, graças à mobilidade doméstica da família, que mudava de lugar constantemente. Penso que há toques de memória e invenção mesclados de ilusão e fantasia no que seria uma biografia. As palavras estão impregnadas de passado como se fossem a vida em si, em que se vive e que nunca se abandona. As lembranças da infância são surpresas habilidosas de lirismo e humor a quem se presenteia leituras: as brincadeiras de rua com os amigos, as constantes mudanças de bairro com a família, a trágica morte da mãe e a descoberta do amor e do sexo. São cotidianos singelos, transparentes, líricos, contados com uma poesia encrustada na obra narrativa. O livro para mim é cálido como uma manhã de primavera. Dessas que a gente precisa de quando em vez. Estou a ler no quando em vez para deixar a vida com frestas de manhã de sol. E de primavera. Pouco motivo?




Casados com Paris
, de Paula McLain, Editora Nova Fronteira

Ainda não entrei no que parece ser o miolo desse romance que dá cor ao encontro amoroso entre  Ernest Hemingway e Hadley Richardson. Acabo de entrar no cenário parisiense, mas há muito para ler nesse sentido, sinto. Acabo de ler a sequência onde tudo começa, numa Chicago regada a muito álcool e jazz , no sonho de viver uma “dolce vida” em Roma. É aí que a história do casal acontece, contada pela personagem Hadley. Fico imaginando, pelo que antecipa a trama, que logo andarei por Paris, pelos tempos vividos à beira do Sena, na companhia de personagens como Gertrude Stein, Ezra Pound e Scott e Zelda Fitzgerald. O que tem me surpreendido até então é o fato de a escritora esclarecer que o livro apresenta personagens ficcionais. Percebe-se com nitidez sua profunda pesquisa histórica sobre o casal Hemingway e as pessoas que os cercaram. Somos conduzidos por entre as pessoas, pelos lugares pelos acontecimentos com pura emoção. Na verdade fazemos uma delicada viagem pelos anos 20, pelo cenário parisiense, pelos sentimentos humanos.




O céu dos suicidas
, Ricardo Lísias, Editora Alfaguara

Achei bonita a capa, estranhei o título, o que dizia a 4ª capa, e me levei pelo estranhamento de o protagonista da ficção ter o nome do autor. Ando pelo começo. Já deixei-o no descanso mais de um mês. De vez em quando leio mais um pedaço. Tudo começa e parece motivar a trama pelo suicídio de André, amigo do personagem narrador, Lísias, o fictício, que é especialista em coleções (embora ele mesmo tenha encerrado seus arquivos de tampinhas e de selos ) e que narra a busca por determinadas respostas e, a partir delas, por uma espécie de redenção. Imbuído de responsabilidade pelo ocorrido, perturbado com o destino dos suicidas ficamos impregnados pela tristeza e pela ansiedade, entre o desespero e a confusão. Ainda vou continuar lendo o livro numa tarde dessas. Mas, ensolarada. Fico com uma ideia pendente: até que ponto o que se escreve tem de real e de ficção?




Paris não tem fim
, de Enrique Vila-Matas, Editora Cosac&Naify

Outro livro com Paris? Está certo que Paris é sempre Paris. Mas é puro acaso de acolhimento leitor. Talvez seja porque em ambos se presentifica a figura de Hemingway. Quis fazer um casadinho com o “Casados com Paris”, pois ele estava dormindo aguardando sua vez de entrar em cena no meu baile. O livro, bem lembrando, é um divertido e melancólico relato ficcional e autobiográfico do espanhol Enrique Vila-Matas sobre o exílio voluntário de dois anos em que alugou, patrocinado por seus pais, a água-furtada de Marguerite Duras, durante o período da ditadura franquista. Artistas, escritores, cineastas, intelectuais e travestis exilados na capital francesa nos anos 1970 acompanham o jovem aprendiz de romancista pelas ruas, festas, cafés e livrarias em que se dá sua formação - ou "deformação", como sugere o texto de orelha de Cassiano Elek Machado. Devo falar que o que me pega de curiosidade e admiração é a forma como ele desenvolve as histórias. É brilhante o jeito como nos conduz pelo romance onde um autor é aficionado pelo seu autor favorito (Ernest Hemingway) e tenta sobreviver numa Paris que já não é mais a mesma coisa de quando seu ídolo da juventude vivia nela.





Em tempo: li que na Catalunha (Espanha), onde a celebração ao livro se originou e como diz a tradição, no dia 23 de abril dá-se uma rosa ao comprador de um livro.


Como quem oferece pétalas de uma rosa leitora, ofereço a quem por aqui passar com olhar de curiosidade e esperança um pouco desse meu conjunto de livros que ora se presentifica em minha vida. Quem sabe você não conduzirá um deles a morar em seu movimento leitor?


Feliz todo o dia do livro!

 

Antonio Gil Neto


Na semana que passou (no 23 de abril) comemoramos o dia do livro. No bem dizer, dia de livro podia ser todo dia. Melhor:  toda a hora em que dá gana de ler. Mas vale destacar um dia de cada ano para ser do livro. Oportunidade concentrada de render homenagem a ele e aos seus autores. Mais ainda: motivar a (re)descoberta do prazer da leitura.


Cá entre nós fica difícil imaginar como esse objeto, antes restrito, sagrado,  destinado a alguns poucos e seletos de poder e pompa, pudesse se transformar assim e reviver em telas coloridas de luz e movimentos em lugar do farfalhar das páginas, do papel que perambula pelos dedos movidos por olhos curiosos, descobridores de personagens vivos, vívidos, incólumes, ancestrais e imprescindíveis: os leitores.


Feliz daquele que se constitui e se aprimora leitor no convívio com as palavras.  Seja no papel ou na tela. Feliz mesmo quem, além dos bons amigos, tem livros às mãos, ao sabor do olhar imaginativo e esperto. Por eles, temos em nossa vida miúda e corriqueira tantas vidas paralelas e surpreendentes para viver.


Vale sempre relembrar Borges no Ensaio: O Livro: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.” E não é isso mesmo? 


Diz mais: “ Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objeto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.”


Estou aqui em floreios amorosos com os escritos de Borges, a escrever este texto-conversa sobre os livros e, num lance de olhar enviesado pela casa, vou me dando conta com alguns deles espalhados a minha volta, como ar enfeitado de palavras, em estado de espera ou como quem colherá frutos ou flores em habitat curioso e de esperanças. Senti pelos seus corpos e formatos, seus títulos, com tantos tipos diferentes e imaginosos, suas lombadas multicores e chamativas que também eles me espreitam. Uma contemplação ao avesso. 


Dou novos rumos ao texto ora concebido. Conto a você um pouco desse conjunto de títulos assim dessarranjados, disponíveis e em andamento leitor. Precisamente hoje, agora, povoam a minha imaginação e meu viver. 


Pois é, antes tenho de quase confessar desse meu hábito talvez esquisito de ler assim: ao mesmo tempo, em paralelo e em descontinuidade, vários livros. Será que mais alguém faz algo assim? Leio livros em conjunto. Feito colheita, temporada, jornada, viagem. Ou melhor, eles ficam à minha disposição. Leio em viés alguns títulos escolhidos e acolhidos por um gosto temporário, feito jogo, promessa ou vislumbre. Nem importa o gênero, o autor. Movo-me pelo interesse, pelas palavras impregnando-me a alma. Envolvo-me nesse currupio. E assim vou lendo desavisadamente, sem tempo, sem data, sem pressa mínima. Entrego-me ao revelar das páginas aladas e ao descortinar das tramas iniciadas. As leituras em partes, ao bel-prazer, de títulos diversos se cruzam naturalmente como viajante que segue por lugar desconhecido e se encanta com o percurso inédito desenhado no próprio perambular que se segue.


Devo dizer que essa estratégia leitora andou acontecendo. Sem arquiteturas. Lembro-me de mudar de título por sentir algo próximo ao dó de estar prestes a chegar ao final de um livro que desejava interminável. Assim inventei mania de criar adiamentos, uma forma obtsusa de prolongar a graça conquistada em ler e ler e ler. Mas sempre sinto isso: uma espécie de dorzinha de alma quando termino um livro. Fecho-o e, alisando sua capa feito carícia cuidadosa, o coloco num lugar de espera e vigília de um próximo encantamento por renovados olhos leitores. 


Nessa estratégia que ando a dizer sempre interrompo a leitura de algum título. Fico no meio do caminho. Deixo-o numa espécie de limbo leitor. Num outro momento o retomo em novo movimento, abraçado por outros companheiros e em múltiplos diálogos. A gente muda, vai mudando e os nossos interesses nos revigoram. Ou nos enganam. Há livros que fico revirando as páginas já lidas. Leio, releio e recupero em outros tons alguns dos trechos já lidos na ideia de prolongar o desfecho e a velha despedida final.


Não quero me livrar de estar encantado pelo que nasce das suas palavras. Acho que é isso. E assim é: cada conjunto de leituras paralelas faz novo movimento de vida em mim. E nunca é o mesmo. Repetido. E assim redescubro-me, aventuro-me, renasço e revivo. Como seria com você? Como tem sido seu movimento leitor?



 

UMA VERGONHA INCOLOR E ALGO IMPORTANTE: ESCREVER PARA O OUTRO (ESSE ESTRANHO REAL PARA QUEM ESCREVE). 


Antonio Gil Neto


Li agora. Achei bonito e guardo em palavras transcritas por mim em sentimentos do agora:

“A vida é mais tempo alegre do que triste. Melhor é ser.”( Adélia Prado).

Será que um dia poderei reescrevê-las de sentimentos renovados?

Na cabeça tenho muita coisa: quem sabe inaugurar um caderno de coisas bonitas?




Lembro-me da minha primeira experiência como leitor especial e comprometido dos textos escritos pelos meus alunos. Minha memória navega na caravana dos sonhos esquecidos. Foi lá na Vila Maria, iniciando a profissão de ensinar. Experiência, 0. Energia e força de trabalho, 10. Uma 5a. série - hoje 6o. ano. Com pose de um quase doutor sabe-tudo cumpri rito insosso, mecânico: cuidei de pedir aos alunos que escrevessem sobre as férias que tinham tido naquele 1974. 


Dou-me conta como desencadeado pelo vento de que havia decretado um silêncio vestido de falsa produção. (É em sonho que vislumbramos o que dizem as palavras guardadas. Os testemunhos em branco insistem, fustigam claridades). 


Como lançar proposta assim, praticamente do nada? Que alunos eram aqueles, nomes enumerados numa caderneta de 1 a 40? Que histórias haviam vivido? Que sentidos teriam tido aquelas férias de janeiro para cada um, para nós? Mal sabia eu. Fiz o que achava que sabia fazer. Daí o não fazer com cara de fazer e de fato. Quantas vezes ainda fazemos coisas assim: lousas cheias, cadernos vistados, páginas cumpridas; mas as cabeças, vagando. Viajando ao longe, buscando domingos de alegrias duradouras. Nem sequer levara em conta que todos aqueles alunos haveriam de ir comigo na aventura pelos campos da árdua e emocionante aprendizagem da nossa língua. O redigir era atividade para o tempo passar em  disfarce de tarefa importante.  Mais: para fugir e se esconder do que propriamente para produzir, revelar algo, expressar-se por escrito. Queria eu saber um pouco da vida dos meus alunos? Com certeza, não. Estava talvez preocupado em me estabelecer na profissão que se iniciava. E o feito copiava ritos dos meus professores. 


Rebrinco com tudo isso. Tenho algo de vergonha quase incolor ao dizer o que digo. Mas aqui me escrevo: enclausurei todos os textos produzidos naquele dia num canto escuro do diminuto armário que tinha na escola. Ali ficaram até o destino que uma arrumação final daria conta de resolver. Não li texto algum. Nada soube daqueles alunos na plataforma daquele ano letivo. Comecei minhas aulas e assim continuei: ao sabor do que era para mim um aluno em potencial. E que a bem da verdade quase não existia no meu real e largo cotidiano. Fui sendo administrado mais pelas páginas de um nodoso livro didático que me domesticava em trilhas prontas de um caminho seguro do que pela existência de mentes e corações a circundar em minha vida. Releio isso tudo em puro desconforto. Até rio de mim. Mas tenho júbilo de não me reconhecer mais nesse episódio distante. 


Como mudei, vou mudando! Tanto tempo se foi, agora não é mais assim. Ainda bem que rendeu o bom. O que se cria e se conhece é que se preza. O quanto aprendo ao tecer experiências. Oriento-me pela minhas próprias mãos que cuidam do essencial. E que se enraíza. Ainda preciso aprender mais. Quem sabe ainda não darei algumas risadas amarelas do que ando a fazer em nome do melhor e proveitosos ensino do ler e do escrever? 


E digo isso para mim mesmo: não vou inventando mais propostas mirabolantes ou artificiais de produção de texto. Procuro semear a escrita nascida e alimentada em trabalho leitor, consonante com os textos que circulam na vida. Atiço inspirações. Os escritos de primeira lavra, são lidos de algum jeito. Pelo menos por mim. Muitas vezes pelos alunos aos pares. Outras, nos grupos, no coletivo. Sempre tenho destaques, os “algo mais” a mobilizar olhares mais preguiçosos ou ainda pouco experientes em matérias de interpretar, expressar-se e averiguar as palavras. Algumas vezes procuro leitores que circulam na escola. O mural, um jornal ou revista super improvisados, um sarau vão desenhando este pedaço. Ainda é pouco. Mas é válido e vai valendo. 


Dou ainda pouca atenção para cada texto em particular. Isso me aflige, me constrange, me faz pássaro cego. Tenho combinados aclarados com a classe: leio com olhos construtivos, por partes. Dos quarenta escolho alguns como referente para semear no coletivo e deles tirar lições para todos. Invento coisas para estender olhares de perícia e encaminhar escritas plausíveis. Como um armazém de palavras. Na hora de reescrever isso conta. Vem à tona alguma prioridade, algo plausível: como realçar a ação de uma personagem que tem protagonismo no texto? Como pontuar a sequência de frases no texto na direção da compreensão do mesmo a todo e qualquer leitor? Afinal, algo vigoroso: como escrever para o outro. Esse estranho e real alvo para quem escreve.


Reúno o antes e o depois. Isso anda a aprimorar-se. O olhar e o escrito. Chamo alguns donos da palavra em atenção particular, junto a mim, na minha mesa, olho no olho e ambos no texto. São alguns poucos por vez. É o que dá e o meu tempo consente. O mar é imenso, mas a esperança é maior. Conversamos, escuto , relemos trechos , aponto coisas. Vou sabendo o que andou pensando aquele aprendiz de autoria, vou fazendo o que posso. Bem melhor do que no passado. 


Tenho me lançado a descobrir jeitos de me adentrar mais como eficaz parceiro na hora da construção do texto no autoral de cada aluno. Árdua tarefa. Em nebulosas, em círculos. 


Estou com olhos atentos, me apurando nos rascunhos, a primeira versão. Essa é a matéria bruta que aprendo a lapidar como quem cria artesãos das frases. Preciso ainda aprender em prática e coração disparado a conversar com meus alunos em orientação por escrito. Para cada um. Um bilhete escolhido, a desabrochar-se no rodapé de cada escrito oferecendo  luzes, de um lado,  para o que bem se escreveu - suporte para próximos escritos. De outro, demostrar a olhos crus o que se pode ver para rever, adequar, aprimorar o que se quer expressar em palavras. Aqui algo se conquistando ainda. Me esforço que só. 


Ainda acho que meus bilhetes não vingam por si só. Andam a precisar de mim, da minha tradução e explicações para surtir feito maior. Vou me dedicando a isso. Estou de aprendiz e mestre. Com janelas aos esclarecimentos. Um Ícaro com os pés no chão. Com tudo a meu favor.


O que mais? Converso com meus alunos sobre isso. Como se insetos alados desatassem meu afeto. Como se eles me ensinassem o imperfeito. A escrever bilhetes práticos, objetivos, orientadores, autossuficientes. Vou descobrindo com eles os “comos”. Faz pouco que ando a escrever bilhetes para cada um. Pequenos e diretos. Particulares e provisoriamente. Com se pudesse acertar na mosca  em meio a algum zumbido ou um bater enérgico de asas. Antes já escrevia,  mas sem o sentido que começo a redescobrir. Antes era uma satisfação, um elogio, uma correção repetida, um questionamento pouco tangível talvez. Além do alcance. Hoje é diferente. Sinto que ele armazena estratégias da interlocução. Tenho de investir nisso. Preciso estudar mais e me aplicar nesse quesito: o que um simples bilhete move o aluno a estranhar o seu próprio texto, reconhecê-lo e aprimorá-lo na sua outra possibilidade? Fico com a ideia que o bilhete antes era um bilhete solitário. Hoje é solidário. Inaugura olhares, aprendizagens, atitudes. Minha e dos meus alunos.


Sinto falta de falar assim, aberto e desencadeado na minha escola. Sinto falta de um espaço liberto para as dúvidas, anseios, perspectivas. Por que não consigo me abrir sobre estes assuntos tão comuns nas reuniões, no dia a dia?  Não são bons assuntos? Não nos fazem melhores pessoas, mais amigos profissionais? As pessoas na escola não se abrem pra valer...


Sei que há muito para se aprender com pessoas que escrevem sobre o que andaram a pesquisar. Isso é maravilhoso, necessário. Mas podemos aprender com o fazer coletivo. Meu e dos meus companheiros de profissão. Sei que amalgamando as leituras em território das descobertas com o experimentar e a investigação dos nossos próprios feitos - o nosso pensar, o nosso sentir - aprendemos muito e significativamente. Será que ando equivocado? O que haverá detrás da aprendizagem dos sentidos que afloram em nossa pele cotidiana? 

 

Entender que a escrita de um texto pode ser interminável. Começa num rascunho. No avesso. (Aprimorar, aprimorar-se é assim!)

Antonio Gil Neto

(Ainda em casa , me ligando para funcionar...).

(No caminho da roça...).

(Em meio aos meus alunos e suas palavras reveladoras).

Caminho nas minhas palavras aqui registradas, neste espaço que nem se amarela mais. Brilha na luz escura da vida, no flash do descobrir. Do descobrir-se. Considero-me andarilho de mim. Cato em minhas palavras, cheias de conversas nuas, o meu próximo existir. O fazer.

Depois que caminhei todos esses anos, me liguei em várias teorias para me fazer funcionar, fiz tantos caminhos da roça e ainda tenho em minhas mão tantos alunos, essas pessoas que povoam parte da minha trilha pela história do viver. Trazem em suas mãos livres, abertas tantas palavras reveladoras, incandescentes. Me queimo nessa fogueira de pedagogias e lições todos os santos e maus dias. Leio agora, mais uma vez, como fotografia, seus gestos, às vezes vagos, vazios, mas indicando setas de perguntas caladas, cálidas e incessantes, sem respostas afloradas. Vive em mim, bem de perto e latejante o que me desenham os meus alunos, personagens que bailam por instantes nesse meu desabafo a se arejar de ventos novos. Gestos paisagem. Deles sondo histórias, perscruto prováveis memórias e recônditos projetos. Vislumbro meus próximos fazeres. Resgato palavras, ideias, prismas.

Sempre aqui ficam e por isso retomo e revolvo, respiro-me nessas conversas sorrateiras. (À luz de velas me inspiro no nascer do sol).  Retomo-as, intermináveis que são. Como carta inacabada, desenho incompleto, conto ainda sem desfecho. Digo o que posso, o que sei, o que me tange e me fere a pele. Mas sempre sobra alguma fresta para o improvável, o imaginoso, o desatado a render-se sem dó. Vivo de estratégias e de sonhos, simultaneamente, não é assim? E vou seguindo educador. Levando a trama das palavras para eles, os meus alunos. De hoje, de agora. E aos que ainda virão no clarear dos horizontes. Tenho tempo, brisa e hálito.

Sempre teimam questões a pendurar no ar nas minhas clareiras. Estou, desde tempos de outrora investigando, investigando-me. O que faço, devo fazer para que meus alunos, na sua maioria, sejam de fato autores mais que suficientes de seus escritos? Busco propriedade, legitimidade e fé. Será que ensino de fato  a ler e a escrever como imprescindível estratégia de viver? Uma questão teimosa que me persegue de dentro, legítima de alma nessa busca desassossegada. Inquietude que é da profissão! Lido com ela por tantos e tantos anos em percalços dessa ensinança,  nesse manejo da língua em bordados de frases. Mesmo assim há ainda um campo vasto e inesperado para se emaranhar...Coser com as palavras o tecido impar da revelações que se seguram nos avessos. Tenho que dar mais força de mim para esses de dentro, os escondidos a tramar ideias de revelar.

Pensei agora e escrevo sobre o que faço, de fato, em favor da avaliação dos alunos quando eles produzem os textos florescidos  das minhas propostas. Busco lampejos miúdos no corriqueiro do dia a dia das tantas atividades de escrita, reescrita e avaliação. Como sei. Na moldura desse sentir pensado ouço por fagulhas a algazarra quase festiva que boia nos movimentos das minhas aulas. Na tela da memória a ensinar. Se fechasse os meus olhos agora veria com clareza alguns alunos e seus sorrisos, essas alegrias espetando o ar.  Acho que se apertasse bem os olhos veria um arco-íris em fogo. Mas tenho de estar com olhos abertos. Com flechas a desferir. Me abrir em algum silêncio mínimo que se abraça ao interesse de aprimorar-me.  Minhas mãos vagam em proteção ao olhar e brincam em alaridos que adormecem em vigília e espera. Tenho ainda esse vazio nobre e silencioso para inundar de palavras e experiências. Esperanças? Minha inquietação me move ao almejado, ao possível.  

O que estava eu a dizer mesmo? O que tenho a meu favor? Lembro-me da vontade dos alunos. Imperceptível vontade. Ah, os desejos, os sonhos...(Seus direitos). Tenho o meu tempo com eles. Posso usufruir e reparti-lo como for melhor para que aprendam para valer. Para o resto da vida, como falava a minha vivida tia Helena. Tenho o meu carinho, o meu zelo profissional. Sem arestas, sem furos. Tenho a minha pesquisa instalada a todo segundo e intento em meu próprio fazer. Tenho a lupa para o que eles me ensinam também. Tenho mais? Com o que não posso contar? Com a pouca oportunidade que a maioria dos alunos têm para frutificar leituras, mais ainda a leitura da literatura. Por isso invisto nesse quesito nas minhas aulas. Tenho a dificuldade de lidar com a necessidade mais intima e particular de cada aluno. As autorais. Distintas e diversas. Melhor, genuínas. Tenho quase 40 vidas precisas, preciosas, por classe. Um povoado a esperar pela benção das letras. O que faço é considerar algumas particularidades numa ação coletiva que é o que me cercam os braços e me cobram as leis. Será que vale? Vou valendo-me em pratos limpos, avaliando-me enquanto me lapido em outras e boas estratégias. O tempo se transmuta e nos transforma  também como dificuldades que carecem de maior envergadura e coragem para aparar os desaprendidos esquecidos com o passar dos anos.

Minhas experiências são um susto. Escrevo para imprimir no Tempo os assombros, as aberturas, as brechas. Quero ficar junto delas e transfigurar-me nesse ímpar fazer. Que elas atravessem a minha vida como se fossem paisagens de sonho. 


 


"Eu sonhei uma cor./ Agora, sei." ( Adélia Prado)


Antonio Gil Neto


Ainda não conheço os tecidos e a quentura do amor. Cubro-me em temperaturas de mármore. Abrigo-me de cantos solitários. Pássaros abraçados ao voo. Não me aventurei nas amorosidades. Só tenho às mãos o que pessoas das mais vividas me falam. Da minha obscura luminosidade descubro tantos caminhos secretos! Quase invisíveis. Um tom, um respiro, uma pequena pausa. Alguma borboleta viajante ocupa meu olhar estagnado de ver, o impulso de imaginar. Minha memória farfalha, inventiva que é de natureza. E ocupa lugares na escuridão. Ilumina o sem luz e cor desde a minha iniciada infância quando tudo se apagou de vez. 


Nunca sei ao certo por onde levam e chegam essas trilhas sinuosas que tomam conta das pessoas em tramas de amor. As que teimam viver. 


Meu pai é amigo, conselheiro, tudo. Ele me fala sobre todas as coisas. Não temos segredos um para o outro. Nem teremos, sei fundo. Minha mãe é mesmo muito apegada a mim. E eu a ela. Alimento-me das suas delicadezas. Enlevamo-nos em nosso diálogo de pele e palavras. Muitas vezes trocamos os sentimentos que valem muito mais que algum olhar. Emprestam-se as suas cores, sons, tons e eu vibro. Cinjo-me de asas, luas, estrelas. Doo-lhes minhas clareiras, meu farfalhar de insigths borboleteantes. Meu sopro de vida. Veios, aromas, detalhes e sutilezas. Somos time completo. O jogo vai. 


Amigas, tenho as da escola. E uma prima de temporalidades. Na classe, sou a única que vejo a vida seguindo de um outro rumo. Amigas mesmo são poucas. Poucas que compreendem que não sou estátua azulada inerte aos ventos e esperando tardes ou a chuva. Sou de sangue e de sentimentos. Como todos. Tenho as minhas fraquezas, fragilidades. Mas guardo-me em fortalezas. Amadurecem em estação certa.


Minha avó sempre me pede para eu ter cuidados. Quando fico na televisão aí ela fala: “se a cabeça não pensa, quem paga é a barriga, né?" E eu falo: “É, vó, é assim mesmo.” Ela gosta de jogar algumas indiretas, mas tocar mesmo no assunto ela não toca, não. Ela fala que sou bonita,  para eu tomar cuidado, que sou nova para as coisas do amor. Não quer que eu estrague a minha vida cedo. Por vezes sinto que ela estragou sua vida em algum ponto ou cantinho enganoso da vida. Mas ela não vê isso. Não percebe essa pequenina dor instalada. Daí esse monte de conselhos.


Me apego nos estudos. É melhor e não me arrependo. Dele posso me aventurar em algo útil para mim e para com quem vivo. Tenho alguns professores que me alimentam nesse intento de presente trabalhoso para virar bom futuro. Apoio é tudo. Alguns professores me dão isso sem nada falar. Apenas dão corda a essa mais que linda profissão de educar, tornar gente as pessoas. Aprendo e vibro com a literatura. Bendita a professora que me conduziu a ela. Meus dedos caminham agora livres pelos brotos das páginas com alegria da maior.  São chaves preciosas nessa descoberta de viver e viver. Pontos de luz.


Das amigas de escola algumas ficam. Ficam e só. Sei o que é isso. Conhecem a pessoa, sem compromisso e nada,  ficar e só. Por umas horas. Pode até só dar beijo e tchau. Não penso em fazer isso, não. Tenho meus brios. Namorar é quando é coisa séria. De compromisso, que tem intimidade de alma, antes de tudo. Não sou careta, não. Sou assim como é alguma miúda flor que nasce e vinga nas suas condições naturais.


Hoje chegou aluno novo na classe. Do interior ele veio. As meninas não viram nada demais nele. Meio sem graça até. Vejo o que ele diz e faz. Vou olhando bem. Faz já dois meses que ele estuda com a gente. Faz uma semana que ando percebendo que se não tomar cuidado vou me enveredando pelos caminhos desse sentimento mais refinado. Afino-me e me percebo incólume. É que fui convidada por ele para fazer parte da dramatização do seu grupo. Só isso. Um ensaio e uma apresentação insossa. Hoje me peguei ouvindo sua voz como uma sinfonia nova. Um clarão de cores na cisterna da minha escuridão cotidiana. Não quero me prender muito. Não quero pensar muito sobre amor, não. Acho que pode ser ilusão, como diz minha avó. Diferente dos meus pais: “vamos com calma, cuidado, mas vamos seguindo...”.  De uma coisa sei: a ausência da visão não cria barreiras para o amor.


Mas já pensou amar alguém sem troca? Nem pensar. Pura ilusão, jogo vazio. Essa é a incerta escuridão. Falo isso porque me encanto e me travo nas possibilidades, nos desdobramentos. Se estivermos prontos, aí vai acontecer.  Sem apressamentos. 


 
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