Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o Futuro

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Taize Odelli*

 

Não estar na Festa Literária Internacional de Paraty não significa ficar de fora da maior comemoração da literatura no Brasil. A Flip é realmente uma grande celebração dos livros que convida a todos a discutir, brindar e saborear o que bons escritores e estudiosos têm a dizer e debater, mas quem não pôde pegar a estrada para Paraty teve a opção de acompanhar as discussões pela internet: transmissões ao vivo, coberturas nas redes sociais em tempo real, tudo para que leitores e admiradores das letras pudessem participar desse encontro que – quem diria – mobiliza toda a cena literária brasileira por cinco dias. Que leva os mais animados e obstinados a viajar por horas através de estradas tortuosas para uma cidade histórica pequena e distante, porém aconchegante.

Muitos esperavam mais da Flip de 2012, já que a festa completou 10 anos de existência homenageando um dos nossos grandes poetas, Carlos Drummond de Andrade. Nenhuma grande polêmica envolveu as mesas que compuseram a programação desse ano – como as saias justas do ano passado. Mas isso não quer dizer que a Flip tenha sido sem graça ou irrelevante. Foi o contrário.

Infelizmente, assistir a todas as mesas é pedir para sofrer de cansaço intelectual e físico – e perder as programações paralelas, que são tão boas quanto a principal. A solução foi escolher: Jonathan Franzen, Enrique Vila-Matas e Alejandro Zambra, Ian McEwan e Jennifer Egan, Laerte e Angeli e Suketo Mehta. Cada uma das mesas agradou a seu modo: Vila-Matas e Zambra (em “Apenas Literatura”) falaram sobre como a literatura se alimenta dela mesma para criar, abusa das referências na construção de histórias, e como os autores procuram ser honestos com o leitor ao não esconder suas referências.

Se eles quiseram ser honestos, Egan e McEwan (em “Pelos olhos do outro”) foram pelo caminho contrário: disseram que existe um grande prazer em manipular o leitor, levá-lo a acreditar naquilo que não é verdade, fazer reviravoltas, conduzi-lo como cego por caminhos incertos para surpreendê-lo no final. Com uma das mesas mais concorridas – os ingressos se esgotaram rapidamente quando começaram a ser vendidos um mês antes da festa –, os dois escritores agradaram ao público ao falar da construção de suas personagens, as pesquisas para seus romances e o processo de escrita – até seu conto publicado no Twitter Jennifer Egan disse ter escrito à mão, em um caderno japonês com oito retângulos por página. A Flip dá aos leitores a oportunidade de ver o outro lado do trabalho daqueles com quem antes só se relacionavam através de páginas. No caso de McEwan e Egan, o público foi rapidamente conquistado pela simpatia dos escritores.

A festa da literatura comemorou mesmo as personagens. As mediações concentraram as perguntas em como criar pessoas cativantes, não exatamente histórias. Esse tema permeou as mesas de Franzen, McEwan, Teju Cole e Paloma Vidal, Egan, e até Angeli e Laerte. A última mesa de sábado, “Quadrinhos para adultos”, foi uma das que mais arrancou risos da plateia. Laerte dominou o público com suas rápidas tiradas: foi como uma gostosa conversa de bar entre amigos que discutem suas preferências, falam do trabalho, da sociedade e, claro, fazem piadas.

Se não houve surpresas durante a programação, houve nas expectativas. Jonathan Franzen era um desses escritores de que mais se esperava polêmicas e falas rabugentas. Sim, ele foi meio evasivo em muitas de suas respostas durante a coletiva de imprensa e em sua mesa, mas mesmo assim conquistou o público e muitos saíram da Tenda dos Autores chamando-o de “fofo”. Franzen surpreendeu por desfazer a imagem de escritor sério demais entrando no palco dando uma engraçada corridinha, fazendo piadas antes de responder a sério as perguntas, citando Jennifer Lopez (sim, a cantora pop!) para contextualizar um ensaio escrito em 1996 em que criticava o mercado editorial norte-americano . E contribuiu com uma cota de emoção ao falar de seu melhor amigo, o escritor David Foster Wallace, que se suicidou em 2008 – o mesmo aconteceu na mesa de Angeli e Laerte ao falarem de Glauco, morto em 2010.

Algumas mesas que ficaram de fora da minha programação pessoal acabaram chamando a atenção pelos comentários: a participação de Adonis e Amin Maalouf (“Literatura e liberdade”) foi muito elogiada, e pelo que pude ler depois, uma das que mais trouxe temas políticos para o debate – uma das falas mais destacadas é a de Adonis dizendo que “Obama é só uma máscara negra sobre um homem branco”. Quem assistiu a James Shapiro e Stephen Greenbalt em “O mundo de Shakespeare” saiu das tendas maravilhado com tudo o que os dois especialistas disseram sobre o Bardo. E DaMatta e Suketo Mehta na mesa “Cidade e Democracia”, um tema pouco literário, mas que agradou a plateia no fim da discussão sobre o espaço urbano, seus problemas e possíveis soluções.

Tudo isso pôde ser acompanhado de casa pela transmissão online feita pela própria organização do evento. Então por que ir até Paraty?

Porque a Flip merece ser sentida na pele, devo responder. Não é apenas a programação repleta de nomes famosos da literatura que fazem do evento um dos maiores e mais prestigiados do país. É todo o clima de festa que envolve a cidade e as pessoas que se arriscam a tropeçar pelas suas ruas. A internet não mostrou os escritores andando tranquilamente por essas ruelas, em meio aos seus leitores. Não mostrou os bons debates paralelos que reuniram escritores e editores nas casas alugadas por instituições ou editoras (como, por exemplo, as conversas de vários autores sobre seus personagens preferidos da literatura, promovidas pelo IMS). Além disso, a FlipZona e Flipinha também contaram com uma programação muito boa. Em um país conhecido pelo pouco interesse pela leitura, é impressionante ver centenas de pessoas fazendo filas enormes para disputar um ingresso no último minuto, para receber um autógrafo de um escritor que admira, correndo para pegar os melhores lugares nas tendas, ver crianças se encantando com as árvores de livros na Praça da Matriz e balões estampando o rosto de Drummond. E todos carregando seus livros e lendo por aí, saindo da livraria com sacolas e mais sacolas.

Enfim, os bastidores da Flip não estão na internet. Talvez por já me sentir familiarizada com o lugar, aproveitei muito mais a Flip deste ano que a de 2010, minha primeira. Não houve fortes emoções nas mesas, concordo, mas houve muito o que comemorar nesses cinco dias de festa pelas pessoas que conheci por causa da Flip, pelos escritores com quem cruzei na rua e que me fizeram sentir que estou muito mais próxima da literatura do que imaginava.

Estar na Flip é reconhecer que a literatura faz parte da vida de muitos brasileiros – infelizmente, não de todos, afinal, Paraty em época de Flip não cabe em todos os bolsos. Mas vale o sacrifício e as dívidas. E dá aquela vontade de participar de mais 10 anos de festa!

 

* Estudante catarinense, está cursando Jornalismo na Universidade do Vale do Rio dos Sinos - RS. Aficcionada por literatura, escreve regularmente para o blog Meia Palavra http://blog.meiapalavra.com.br

 


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Comentários   

 
0 #14 Maria Aparecida Rodrigues 30-07-2012 18:17
Adorei o artigo, gosto muito de ler e estar sempre atualizada, a autora está de parabéns :cry:
 
 
+2 #13 Nonata de Jesus Ferreira Carvalho 21-07-2012 13:52
gostei muito desse artigo é tão empolgante saber que alguem gosta tanto de literatura!. A autora desse artigo está de parabéns. Abraços.
 
 
+1 #12 vera Lúcia Rodrigues da Silva 19-07-2012 18:20
Ótimo artigo, infelizmente só acompanhei a Flip pelos meios de comunicação, mas hoje são tão eficientes que nos sentimos visitando o local. Foi uma festa maravilhosa, que pena não poder contactar pessoalmente os escritores dessa nossa belissima Literatura. Um abraço a Taize Odelli por partilhar conosco tal espetáculo através da escrita.
 
 
+1 #11 Geni Rosa de Oliveira 19-07-2012 15:44
Infelizmente só pude acompanhar a exposição da Flip pelos meios de comunicação.Con tudo, apreciei muito este artigo, pois ele está impregnado do "gosto saboroso da leitura".
 
 
+1 #10 VERA LÚCIA CUNHA DE LUCENA 19-07-2012 09:57
Acompanhei esta exposição da Flip pelos jornais da televisão. Acho importante que aconteça sempre movimentos culturais em nosso país para as pessoas participarem desses eventos e conhecerem mais a literatura, principalmente, a nossa.Vera Lucena,Jardim do Seridó-RN.
 
 
+1 #9 Taize Odelli 19-07-2012 09:19
Liliana Secron Pinto: Nossa, queria tanto conseguir ver a programação paralela! Mas a correria de cobertura que estava fazendo da Flip não permitiu =( Prometo pra mim mesma que ano que vem vou ver o máximo de mesas possíveis! Maria Lúcia Barbosa Zemczak: Não combina com o recesso de ninguém (já imagino o rombo que vai vir no meu salário por conta dos dias de folga que peguei hahahaha). A Flip é o tipo de evento que você tem que se programar com muita antecedência para poder participar. É, por natureza, bem segmentado e feito para ter um público menor (não só na questão de ter condições financeiras de ir até lá, mas até chegar lá já é um sacrifício!). Adoraria muito que um evento desses pudesse agrupar ainda mais pessoas, mas o bom é que a Flip abriu espaço para dezenas de outros eventos que seguem os mesmos moldes (como a Fliporto, Literata, etc.) e que ocorrem o ano todo. Evento para festejar a literatura é o que não falta mais =)
 
 
+1 #8 Taize Odelli 19-07-2012 09:15
Continuando (hehehe) 

Marli Aparecida Bruno: Eu saí da Flip com a impressão de que Drummond estava bem presente. Acho que não deu para fazer um link de Drummond com todas as mesas realmente, e quando tentaram fazer ficou forçado (referente a uma pergunta feita para o Franzen, que foi bem bobinha, acerca dos óculos roubados da estátua de Drummond e os dele mesmo hehehe). Mas ele sempre esteve presente através das leituras de poemas antes do início de cada mesa, que achei uma ótima maneira de homenageá-lo também (ainda não sei o que pensar sobre a performance de Carpinejar lendo na abertura da mesa com Teju Cole e Paloma Vidal hahaha). Infelizmente não vi, mas falaram muito bem das mesas que se concentraram na obra dele, mas não tive como passar isso para meu relato. =( 
 
 
+1 #7 Taize Odelli 19-07-2012 09:06
Obrigada pelos comentários! =D

Eu acabei deixando bastante coisa de fora mesmo do texto porque é muita coisa, acabei concentrando nas que mais me marcaram. Bem, acho que seria legal para complementar comentar um por um:

Raimunda Romana da Costa Castro: Raimunda, para quem gosta tanto assim de literatura, a Flip é um sonho, apenas isso =D

RAQUEL VIEIRA BARBOSA: Concordo com a sua colocação. Não lembro se a educação entrou em debate nas edições anteriores. Além do foco, que é a literatura e os escritores, verdadeiras "celebridades" durante esses dias, já houveram discussões sobre mercado editorial, novas tecnologias e o impacto na produção/venda/ leitura, mas não a educação propriamente dita. Mas uma coisa que vale ressaltar é o trabalho que a Flipinha faz com as escolas da região. Quase todas participam da programação infantil, com leituras, oficinas, etc. Já é uma forma de incentivar novos leitores.
 
 
+1 #6 Maria Lúcia Barbosa Zemczak 18-07-2012 23:18
Pela primeira vez participei da FLIP. Embora tenha gostado muito senti que poderia ser mais democrática. Sou de São Bernardo do Campo -SP e meu recesso não coincide com o evento. O evento poderia ser na segunda ou terceira semana de julho.
 
 
+1 #5 Liliana Secron Pinto 18-07-2012 23:11
Acho que minha impressão da FLIP foi um pouco mais otimista. Ou pelo menos seriam um pouco mais efusivos em meus comentários se tivesse escrito o artigo. Estive na mesa de abertura e outra sobre Leitura no espaço público (não citada no artigo). Esse foi um debate inspirador pra mim que sou professora de Sala de Leitura. Vi muitas outras mesas paralelas. Não parei um minuto. Para completar, teatro, shows, declamações nas ruas, apresentações de crianças. Para fechar com chave de ouro, um barco com uma portuguesa recitando Fernando Pessoa com direito a degustação da deliciosa cachaça local. Impagável!

O que vi por todo lugar e nas mesas que assisti foi muita satisfação e muita, muita emoção. Não houve mesa paralela em que autores e/ou platéia não tivessem vindo às lágrimas.

Foi pra mim uma experiência inesquecível... renovadora... fortalecedora. Uma verdadeira Festa Literária!
 
 
0 #4 ELIONEIDE SOUZA DA SILVA 18-07-2012 21:58
Olá! sou professora no município de Luiz Correia-PI,que bom saber que este evento teve a participação de várias pessoas isto mostra que o mundo da leitura continua vivo,pena que eu não pude vivenciar esses momentos inesquecíveis .
 
 
0 #3 Marli Aparecida Bruno 18-07-2012 21:44
Adorei o artigo, foi uma retrospectiva do que aconteceu na FLIP.Sou professora de Língua Portuguesa e também foi a segunda vez que tive a oportunidade de estar na Flip. Concordo com você ao mencionar que foi realmente uma festa literária. No entanto gostaria de ressaltar que em todas as mesas faltou falar um pouco mais sobre o homenageado Drummond. No ano passado o homenageado da festa era Oswald Andrade e mesmo para os que não conheciam nada de sua literatura, saíram da Flip familiarizado com o autor, pois todas as mesas faziam um viés com sua obra. Este ano isso não ocorreu. A impressão é que o homenageado estava apenas estampado nas ruas e não mencionado nas mesas. Até mesmo na última mesa intitulada como "Livro de cabeceira" na qual esperava que algum dos escritores citasse versos de Drummond, não aconteceu.O homenageado ficou um tanto esquecido.
 
 
+4 #2 RAQUEL VIEIRA BARBOSA 17-07-2012 18:45
Olá! Sou professora no município de Francisco Morato e fui na FLIP. Acredito que faltaram discussões que pensassem na realidade do país acerca da leitura. Nosso país não é de leitores, os formadores lêem pouquíssimo ou nada. Dentro de um país com esses problemas relacionados à leitura, senti falta desses debates. Acredito que um evento que pensa em festejar ou incentivar a leitura de literatura, deveria ser mais democrático. Mesmo com essas ressalvas, gostei de participar, acredito que todos que tenham a possibilidade (financeira principalmente) de irem à FLIP, devem fazê-lo.
 
 
+2 #1 Raimunda Romana da Costa Castro 17-07-2012 17:14
Parabéns pelo seu artigo, senti-me como se estivesse na Flip. Fiquei encantada, sou apaixonada por literatura, infantil, cordel, ficção, enfim, literatura é um encantamento.
 






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