Antonio Gil Neto
“Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha”. (F. Pessoa).
A descoberta do fogo, a invenção da roda. E o amor se desvelando infinitamente. Atos e palavras. A humanidade se reinventa. E nós, sobreviventes da geração que emerge das anteriores. Dízima periódica. Até que o mundo não agüente, se mostre sem surpresas em novo dilúvio ou fazendo valer alguma profecia, tudo se move, se atualiza. Presentes e futuros envelhecem à espera de outros tempos novinhos em folha.
Eco da canção mineira: os sonhos não envelhecem. Amor, sentimento primoroso da identidade humana desfia-se e nos desafia na busca da melhor forma de viver. Os problemas sobrevivem na pauta dos dias mais comuns. Mudam de cara, de layout, desfilam na fieira de gerações.
E o escrever, linha d’água da vida, moto contínuo. Oportuno: quantas ocasiões fazem o escritor?Quantas aldeias adormecidas a despertar...
Importante diálogo: o real e a escrita. Suscitam olhares. Ilustram imaginações e se desdobram em reescritas. A inspiração inaugura-se no reflexivo, no burilar, na escolha do tom. Poemas não florescerão da ponta dos dedos. A exposição: o mural de palavras que guarda imagens. Algo a investir, surpreender! Se a imagem vale por mil palavras, um olhar apurado vale por um infinito. Com a palavra o olhar vira busca e resgate. Capta as emoções primordiais. O movimento se descongela e se corporifica. Tela, papel a arte realizada. Vale uma crônica? Um poema? Entre linguagens, sem predomínios ou muros, a vistoria do olhar-palavra intensifica o jogo do criar. Uma imagem aponta. Instiga, alimenta, sugere, amplia, convida, propõe, projeta. A crônica evidencia o olhar. O poema acorda em corte de pedras. Há após leituras e escolhas. Mas há o projeto: o texto. Outro suscitar provocativo. Fios de meada pedagógica, acredito.
Esse solitário ofício da escrita. Mostrar costuras, avessos, transparências de tirar o fôlego. Cavernas. Para ser solidário.
Um filme perturbador nos causa incômodos dos mais diversos. No abrir os olhos as palavras que guardam repensar. Talvez dados alarmantes. Ou a borda da história que nos retrata. Atentos para o perigo de generalizar ou achar.( As ONGs são poços de más intenções?) Das provocações à imprescindível reflexão. Cenários se desvelam nas palavras: generosidade ou exploração se formatam para o jogo leitor. Uma proposta ácida, provocadora pode nos atrair. Saímos do pés atrás para ficar diante do estarrecido que aflora. Nosso olhar disponível a descobrir. A desvelar atitudes, valores ou descaminhos. Aqui é que entra mais um fio do nosso fazer, outra proposta.
Do lado educador aposto em lugares menores, nada alardeantes, estridentes: o imprescindível para que o livro caia em algum redemoinho humano e aconteça de vez. Que aconteça silenciosamente a partir de pequenos pontos disparadores que alarguem sonhos e contemplem desejos. Que as palavras das páginas virem vitrines, cortinas que se abrem para despertar os desvios dos mais curiosos. Outro fio: estratégias das tantas brincadeiras íntimas com as palavras. O lugar do livro é na casa de cada um: no seu cotidiano, chuva e sol. Isto e aquilo. No lugar onde a gente é. No quartinho, na rede, na tenda. No tempo e espaço disponíveis. Sempre. Moram com a gente, como pessoas queridas. Alimento e beleza. Disponíveis ao nosso desejo particular. Não fala por si. É apenas possibilidade generosa. Por ele um enveredar pela fantasia aos sabores de uma voz convidativa e inebriante. Que o livro seja amoroso objeto que nos acompanhe na vida. Que a reinvente, que a revigore.
Mas, lugar de livro morar com necessária certeza é na escola. Objeto de primeira necessidade, consumível, perecível. Após sinfonia de dedos vorazes. pelo saracotear das travessuras leitoras fica sujeito a se autodestruir. Nela o impulsionar de movimentos leitores: caixote, carriola ou carrinho de supermercado. Que circule, povoe mãos, desperte olhares. Ei-los, os livros, numa cesta sob as árvores dispostos aos desejos pequenos ou armazenados em lombo de burro, caixeiro-viajante, a circular pela comunidade escolar à cata de novos leitores, ampliando e criando novos espaços de respiro. Ah, esses inconfundíveis companheiros.! Sobretudo nas salas de aula, lugar nobre e principal! Ali que mora a potencial mediação. Ali vivem os atores das leituras, cúmplices de um projeto tramado em palavras de se aprimorar a cada dia. E o palco e a ação. Sugeridos, experimentados, escolhidos, acolhidos, partilhados pelo gosto de espera e dos olhares a despertar. A experenciar. Sopros de vida. Com liberdade e alegrias. Sem alardes.
Há muito para falar? Suponho que alguém que nem tenha ido a alguma Bienal do Livro possa nos dizer sobre esse lugar e sobre o papel de cada um de nós na vida dos livros. Neles, o plural do Universo. E o particular e genuíno.Estações de tantas luzes. Eterna exposição. Quando nele nos adentramos temos o coração num pulsar de solenes expectativas. O farol de muitos e outros detalhes a saber, a descobrir. Nas breves despedidas saímos aturdidos, felizes, plenamente acolhidos pela poesia que guarda todos e cada um de nós.
Simples e rasteiro, somos sustentados pelos nossos sonhos. Talvez pela ínfima possibilidade em realizá-los. E assim continuar alimentando a máquina humana de sonhar e viver.
Em delicada beleza as palavras se instalam. Em melancolias ou alegrias. Mariposas etéreas se debatem na busca de luz, esse tecido magnífico. A poesia das palavras alinhadas gera sons. Provocam ondas a circular pela eternidade mesmo depois de não mais serem ouvidas. A poesia e a eterna ligação com o mundo. Nos leva de volta, nos permanece. E nos leva além. Em aprofundamentos, como as mais divinas forças.O fio do corte.
Penso que suscitarei assuntos para discussão. Penso que haverá modos de contar narrativas dos filmes, de estar presente numa crônica, de cantar os versos ao ar. Penso que haverá material humano estimulador às leituras e às produções em palavras. Quem sabe você não se enverede a investigar algo para nos contar? No mais, é deleite e diversão, não é?

Comentários
Obrigado pela sua presença e, sobretudo pelas suas palavras amigas e generosas.
Vou torcer para a gente se encontrar em alguma das oficinas da OLP neste ano, não é?
Maior abraço,
Gil.
Seus textos servem de estímulo para a leitura e a escrita, são bem dosados, belas palavras. Parabéns!
Qualquer dia amigo, a gente se encontra!
OLP escrevendo o futuro.
Obrigado por se fazer presente nas palavras desenhadas neste nosso espaço virtual. Ficamos mais ricos com a sua presença..
Fico especialmente feliz quando vc me diz que os meus textos são valiosos para os professores. Bom demais.
Obrigado mesmo...Volte sempre. A casa é sua, nossa.
Abraço especial,
Gil.
Citar
Que bom reencontrá-la novamente em palavras...em poesia.
Seu poema enriquece por certo este nosso espaço coletivo de leituras, conversas, trocas de impressões e escritos...
Vamos em frente e até a próxima. Parabéns!
Abraço grande,
Gil.
Fico especialmente feliz com sua mensagem.
Vc e mais esse grupo de educadores tão especial que marca presença por aqui me dão ânimo, inspiração e força para escrever e escrever.... Obrigado.
No mais, tenha mesmo a certeza de que este espaço é seu, é nosso... Fique livre para postar o que achar importante para todos nós que amamos a leitura e a escrita....
Vou aguardar, viu?
Maior abraço,
Gil.
São dados valiosos para nós os professores.
Obrigada.
Abraços.
Eny de Mattos Almeida
se dissipa.É o saber
é o nascer, é o florescer
E olhinhos fitados
das carteiras, a beber
a absorver, maior,maior florescer!
Porque é mais que forma,que método,
que estratégia...
É ser. Palavra!!!(Mari a Sómaria)
Este ano por motivos pessoais, estou fora da escola. Você nem imagina, oomo foi angustiante ler a chamada: "a reflexão e o convite a participar " deste ato responsável de pensar a leitura e a escrita dentro da sala de aula.
Que texto revigorante! É incrível como você tece fio a fio a organização das sequências de atividades pedagógicas voltadas para o projeto da OLP.
Já que nós dá voz, me aguarde; tenho muito para contar!
Um abração,
Sempre a alegria por reencontrar vc neste nosso espaço de tantas conversas íntimas...
Fiquei pensando que vc até já tem um lindo pseudônimo de escritora aqui nascido, não foi?
Só falta lançar ao mar de olhos as suas palavras... Imagino que vc andará a escrever e a escrever, não é não?
Também lhe agradeço pelo recado sobre minhas estratégias, temas e movimentos do escrever.
Que seja como vc diz: que ele possa ser valioso para muitos e muitos professores...
Maior abraço,
Gil.
Admiro esta tua forma de escrever, frases curtas mas cheias de riqueza e esse passear por vários temas.
São dados valiosos para nós os professores.Iss o tudo é uma autêntica aula de conhecimentos. Obrigada.
Abraços.
Manuela D'além mar
Fico deveras feliz com tua presença: teu escrito lavrado em pedras...
Nossa humanidade se junta em belo brincar de fazer poesia. É tão grande que petrificam belezas, doçuras...
Ah! as palavras, as nossas. Me deito para acordá-las em cortes, os fósseis pontiagudos...
Um monte de abraços,
Gil.
Gil, E era uma pedra tao grande
pontiaguda, para defesa...
de um fóssil, outro fóssil
e mais outro, se petrificou
E o núcleo?
Beleza e dócil! (Maria Sómaria)
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