Cida Laginestra
De Paraty
Entre os dias 4 e 8 de agosto, a cidade de Paraty, no Estado do Rio, se transformou em território da palavra, da ficção e da literatura. Nem o tempo nublado e frio – incomum na região - espantou os mais de 20 mil visitantes vindos de diversas regiões do Brasil e do exterior.
Debaixo das várias tendas, armadas para as mesas de debates com os autores, também ocorreram a Flipinha, festa literária para crianças; e a FlipiZona, destinada aos adolescentes. Na praça da Matriz, livros por toda parte. Em galhos e sob as árvores; em panos coloridos espalhados pelo chão e em painéis. Estátuas vivas de piratas, sereias, cangaceiros, além de músicos, cordelistas, oficineiros invadiram as estreitas ruas de pedra do lugar. Instalações e personagens da obra do sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre, autor homenageado na edição deste ano, também compuseram o cenário da praça transformada numa livraria arejada e móvel.
Na conferência de abertura abordou-se o seu livro de maior projeção de Freyre Casa-grande & Senzala. Em outras mesas seus livros menos conhecidos, como Ordem e progresso, Nordeste e Ingleses no Brasil - que também tratam da formação da sociedade brasileira e foram explorados minuciosamente. Na Tenda dos autores uma exposição sobre sua vida e obra, com material inédito do acervo da Fundação Gilberto Freire, de Recife.
Contradições
Na conferência de abertura, o sociólogo e ex-presidente de República, Fernando Henrique Cardoso, fez uma análise de algumas obras de Gilberto Freyre. Iniciou discorrendo sobre a qualidade de ensaísta do autor: [Freyre] “escrevia bem - em espiral- um estilo próprio. Conhecedor da literatura - e da vida cosmopolita da Europa e Estados Unidos- envolve o leitor numa quase novela. Usa palavras bem postas, arrazoa de forma simpática, mas foge da responsabilidade intelectual de chegar a uma conclusão. Não traz a forma, o cânone, o rigor da linguagem acadêmica, científica.”
Fernando Henrique também apontou as ”afirmações inaceitáveis” do autor sobre negros, judeus, índios e brancos que aparecem nas páginas de seus livros. “Um antropólogo não pode exibir preconceitos, atribuir qualificação a pessoas e raças. Sua análise é oscilante, uma idéia anti-diáletica que não se realiza. Um exemplo de seu poder contraditório são as afirmações sobre a perversidade dos jesuítas, que ora considerava horríveis para depois dizer que eles ajudaram a superar o atraso cultural. Não se pode explicar o presente pelo presente. Presente, passado e futuro se entrecruzam para explicar os fenômenos brasileiros”, declarou o ex-presidente.
Freyre rompeu com a tradição da época e sua obra permanece porque criou-se um mito. Ela soube explorar a cultura, as relações pessoais e a vida cotidiana brasileira.
Ao correr da pena
O próprio Gilberto Freyre costumava explicar sua forma de expressão: “A escrita é meu veiculo. Vaidosamente, ou não, considero-me um escritor literário, com uma forma literária de expressão”. Na segunda mesa sobre o autor, o escritor Moacyr Scliar, o historiador Ricardo Benzaquen e o crítico literário que foi amigo de Freyre, Edson Nery da Fonseca, também analisaram esse aspecto da escrita do sociólogo.
Scliar falou do extraordinário talento do escritor. Texto leve, poético e que transita entre o coloquial e o literário. “Cativa o leitor pelo jeito informal que narra. Usa e abusa da história. Escreve na primeira pessoa,divaga, dá lição de moral, não usa números e dados quantitativos, afastando-se do rigor da metodologia cientifica”, afirmou o escritor gaúcho. Scliar, que também é médico, ainda comentou sobre um dos tropeços de Freyre: a sociologia da medicina. “Ele se dava conta de um fenômeno histórico, mas não o investiga seriamente até o fim”, afirmou.
Edson Nery – que disse preferir ser denominado de um “Gilbertófilo” - apresentou outras marcas da escrita do autor pernambucano, destacando a presença do imagismo, da enumeração caótica - “vertigem de listas” - e do expressionismo, um “desapego pela realidade”. Citou como exemplo o poema Bahia de Todos os Santos e de quase todos os pecados, publicado no livro Bahia e baianos, escrito por Freyre, com 113 versos que se desdobram numa “cachoeira de elogios à cultura baiana”. Destacou que Freyre valorizava a linguagem popular e escrevia como falava.
Bahia de Todos os Santos (e de quase todos os pecados)
casas trepadas umas por cima das outras
casas, sobrados, igrejas, como gente se espremendo pra sair num retrato de revista ou jornal
(vaidade das vaidades! diz o Eclesiastes)
igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras)
toda a Bahia é uma maternal cidade gorda
como se dos ventres empinados dos seus montes
dos quais saíram tantas cidades do Brasil
inda outras estivessem para sair
ar mole oleoso
cheiro de comida
cheiro de incenso
cheiro de mulata
bafos quentes de sacristias e cozinhas
panelas fervendo
temperos ardendo
o Santíssimo Sacramento se elevando
mulheres parindo
cheiro de alfazema
remédios contra sífilis
letreiros como este:
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo
(Para sempre! Amém!)(...)
Já o historiador Ricardo Benzaquen também ressaltou a ausência do ordenamento científico para iluminar e organizar o empírico. “Quando se diz ensaísta, Freyre se liberta da responsabilidade do cientista social que sai em busca da comprovação”, explicou. Benzaquen fez uma provocação: “O intelectual tem que escolher uma posição? Ou basta chamar atenção para os problemas? Qual o caminho? Será que não cabe ao político fazer a escolha de uma posição?”.
Além da Casa Grande
Uma terceira mesa sobre Gilberto Freyre foi composta pelo africanista Alberto Costa e Silva, pela historiadora Maria Lúcia Palhares–Burke e pela socióloga Ângela Alonso, que examinaram a obra de Freyre para além de seus dois livros mais famosos Casa-grande & Senzala e Sobrados e Mucambos.
Destacaram que Freyre sempre foi “relativo e nunca dogmático” em suas obras.Na maior parte das vezes ressaltava a circunstância e descrevia sem medo de errar. Foi capaz de falar do bicho de pé, do mucambo, das palmeiras usadas nas casas populares, do boi,do rio, das doenças do nordeste. Do “mundo pequenino e sem importância”.
Num de seus livros menos conhecidos, Ingleses do Brasil, publicado em 1948, Freyre pensou em fazer uma grande pesquisa com mil entrevistas, conversando com pessoas de diferentes castas sociais, selecionadas com rigor científico. Quis entrevistar Getúlio Vargas e Monteiro Lobato. Os dois declinaram do pedido por meio de cartas, posteriormente publicadas por Freyre. O livro acabou por ficar com 183 depoimentos, um deles de Manuel Bandeira.
Os temas do sociólogo pernambucano não eram ficcionais e mesmo assim ele abusava da liberdade narrativa. Como um arqueólogo, usava como fontes de pesquisa e informação antigos anúncios de jornal, chapéus, dentes de ouro, rótulos, anotações. Buscou figuras esquecidas, a gente “miúda, as “marias borralheiras” da nossa história de formação. Dava viço e humanizava os personagens. Criava uma atmosfera de quase romance. Mas, pecou ao esmaecer os conflitos políticos e ignorar em quase mil páginas de sua obra o golpe de estado que abalou o país em 1964.
Saiba mais sobre Gilberto Freyre acessando a página da
Fundação Gilberto Freire:
http://www.fgf.org.br/
A fundação também possui uma biblioteca virtual:
Publicado em: 11/08/2010
