A equipe da Comunidade Virtual selecionou três textos de ficção produzidos por professores: um poema – Papel e tinta, de Rosane Fernandes, da Secretaria de Educação de Areal (RJ); um conto – O romper da Aurora, de Daniela Souza, da EMEB Prof. Benno Carlos Claus, Itatiba (SP); e um microconto – Estranho no ninho, de Sidnei Alves da Rocha da Escola Estadual 12 de Abril, Terra Nova do Norte-MT.
POEMA
Papel e tinta
Rosane Fernandes
Tenho uma veia a mais
Que fica externa
Fora do corpo
Deixada de lado
Dentro de um estojo
Nos momentos em que as palavras fervem dentro de mim, querendo saltar num turbilhão
Dela me valho
E sangro no papel
Toda minha inquietude.
Assim
Escrevo,
Descrevo,
Me alivio
E mancho com letras o branco que absorve meus pensamentos grafados.
CONTO
O romper da Aurora
Daniela Souza
No barraco mais torpe, diante da janela onde a densa fumaça dos carros e caminhões tece a cortina de esquecimento, Aurora senta-se para tecer mais um dia, tinha um coração preguiçoso às vezes flácido, indiferente que a fazia por um momento se comover com qualquer coisa e outras vezes perder a referência do mundo centrando-se apenas em seu bordado.
Vestia um vestido pobre de opaco tecido que cambiava entre o rosa e laranja, como o leve véu que cobre o céu do morro.
Os sons que chegam ao barraco vêm abafados, os risos das crianças, a música são engolidos pela cortina cinza, ficam presos em suas linhas misturam-se com suas cores, enrolam-se nas tramas finas do bordado.
À noite Aurora estava deitada ao lado do seu marido, sem sono, virava e revirava na cama, um pequeno facho de luz prata irradiava o quarto naquela noite.
Encolheu-se toda com as mãos entre as pernas fechou os olhos, respirou fundo, bocejou e não dormiu.
Mirava a nuca do marido e por um momento sentiu raiva dele que dormia serenamente, percebeu que seus cabelos estavam ficando grisalhos e por um momento achou que estava deitada ao lado de um estranho.
Ao acordar, viu que ainda havia estrelas no céu, preparou o café serviu ao marido que a olhou com espanto, estranhou suas olheiras profundas, ele disse poucas palavras, saiu para o trabalho, ela o acompanhou com olhar vago e um gosto amargo na boca.
Bordava com a determinação de quem se dedica a uma tarefa só, cobria com cuidado o desenho de flores, o bordado a prendeu e há sempre a necessidade de acabá-lo, mas ele não tem fim, já se estende para fora do barraco, percorre as ruas e becos, cobre o chão de terra. No peitoril da janela vê uma pomba, em seu bico uma gota de sangue, Aurora sente em seu peito uma dor antiga que a ave representa.
Afaga a pomba que arrulha baixinho, aconchega-a nas mãos e assim ficam por alguns minutos, depois a liberta, acompanha seu voo, levanta-se, seus olhos piscam na claridade, há tempo coados pelo tecido.
O bordado escorrega, ela corre ansiosa para alcançar a ave, carrega o bordado nos braços, suspira, e olha para o vasto horizonte.
Raios de luz iluminam seu rosto, ao pouco parece despertar dos sonhos loucos e amordaçados, por um momento recua, leva a mão ainda com agulha em punho ao peito, seu olhar vaga para última visão do barraco, começa a percorrer um mundo estreito, a pomba vem voando em sua direção envolta em luz, segue o voo do pássaro e afasta-se para sempre do nevoeiro, seu coração ardia, sentia a garganta seca, começou a sentir um leve formigamento nos lábios.
Sentiu-se invadir de luz prata, caiu por sobre o bordado, as flores bordadas em linhas vermelhas agora tomam vida, os ramos verdes percorreram seu corpo, imóvel ela fitava o céu pintado de negro viu-se a bailar pelas tramas e fios, dançava suavemente descalça, os pés sangrando, não esperava mais que alguém a salvasse, já não havia nem passado e nem futuro, Aurora havia se rompido.
MICROCONTO
Estranho no ninho
Sidnei Alves da Rocha
“Ver eu não vi. Eu ouvi falar.O que eu faço é contar.”
Extraído de um programa do Canal Futura
O copo chegou e foi posto no armário.
Causou estranheza.
Foi ficando, foi ficando, até que se quebrou na pia, transformando-se em incontáveis pedacinhos.
Houve profunda tristeza entre as xícaras.

Comentários
Parabéns aos três.
Parabéns aos professores escritores.Ador ei os textos.Eu também gosto de exercitar minha imaginação.Escr ever refresca a mente.
PARABÉNS
os textos estão ótimos!!!
Mas o poema realmente é maravilhoso, muito expressivo, real, atual....
Parabéns
Angela Rossetti
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