Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o Futuro


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Sabedoria modernista, o testemunho de um amigo

Antonio Candido foi o grande mestre do evento. A entrada inesperada no palco, antes mesmo de sua apresentação formal pelo curador Manuel da Costa Pinto, deu um toque de transgressão modernista, provocando risos e aplausos da platéia. De um jeito coloquial, quase um bate-papo íntimo entre amigos, Antonio Candido, esbanjou sabedoria na abertura da 9ª edição da FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty, que homenageou o escritor Oswald de Andrade (1890-1954).

Acompanhado pelo ex-aluno, professor, músico e também crítico José Miguel Wisnik, Candido iniciou dizendo que não faria uma conferência acadêmica sobre a vida e obra do escritor; falaria como sobrevivente e amigo de Oswald de Andrade:

“Vou dar um testemunho da minha geração. Conheci Oswald em 1940 na casa de um amigo. Em 1943, escrevi um artigo severo sobre um livro que ele publicara. Na época, os críticos evitavam escrever sobre sua obra com medo do poder sarcástico, sangrento de suas palavras. Temperamento irascível, sua reação foi imediata. Atacou-me com violência. Como não perdi a serenidade diante de suas críticas, ficamos amigos. Em um artigo Oswald publicou: ‘Reconciliei-me com o Sr. Antonio Candido’.

Ele foi um agitador de ideias, mestre do jornalismo. Excêntrico, vivia fora da rotina. Possuía incrível brilho verbal, poder de síntese, presença de espírito e muito humor. Observador, era apaixonado pela realidade. Mas as lendas ao seu respeito eram surpreendentes (raptou uma normalista e tinha um filho chamado Lança Perfume Rodo Metálico) e, somadas aos textos anônimos e a publicação restrita, acabaram por atrapalhar o conhecimento de sua obra. Falava-se do escritor sem ter a obra para ler.

Em 1934, consegui o livro Serafim Ponte Grande - mal editado em papel ruim - numa livraria em Poços de Caldas. Em respeito à minha mãe não lia o livro em casa por causa dos palavrões e citações apimentadas; fazia a leitura na praça.”

Antonio Candido contou um fato ocorrido em 1947, que mostra traço da personalidade impulsiva do homenageado, que não sabia viver sem aplausos e afeto. Como não foi convidado a participar do Congresso Brasileiro de Escritores, chamou seu organizador, Mário Neme, de “grão turco de Piracicaba”.

A expressão mordaz era embutida de sentidos. A palavra turco ofendeu Neme, que era filho de libanês; grão era como se referiam ao tirano da Turquia, na época. Assim, Oswald mostrou o poder arbitrário de um caipira no controle da associação.

Oswald incentivou a carreira de Mário de Andrade, mas depois uma desavença acabou a amizade. Tentou, sem êxito, a reconciliação. Antes de morrer, pediu que registrassem: “Macunaíma, de Mário de Andrade, é o maior livro do modernismo brasileiro, aquele que eu gostaria de ter escrito”.

O grande modernista valorizou a mulher como criadora de vida. Anárquico, considerava que ninguém mandava em ninguém. Inconformado com as injustiças sociais, apregoava a igualdade a restauração da sociedade humanitária.

Homem polido, de educação primorosa, recebia com hospitalidade os amigos. Soube usar a arma do riso, pois a literatura séria não é incompatível com o riso dos modernistas. Depois de um período de esquecimento, o autor renasceu. Sua obra, hoje, é lida em outro contexto; abre-se para questões que estão emergindo.

Efervescência cultural

José Miguel Wisnik, em tom mais próximo da aula de literatura, lembrou que Oswald voltava a ser uma figura importante na vida cultural do país no final da década de 60, época de grandes discussões estéticas, da cultura híbrida. A efervescência cultural ecoou em todas as áreas. O movimento tropicalista, na música popular; Terra em Transe, no cinema de Glauber Rocha e no teatro O Rei da Vela, de José Martinez Corrêa.

Wisnik ressaltou: “Em sua obra, Oswald explorou frases de efeito, epigramas, poemas límpidos, poesia síntese de efeito e alvo pronto. A antropofagia desloca a literatura para outro lugar, instaura outros critérios, não incorpora todas as influências, não mistura tudo com tudo, não é a devoração pela devoração. Muitos dos conflitos atuais têm em sua origem a questão da impermeabilidade social”.

E finalizou sua fala com a leitura de uma declaração sobre direitos autorais, contida no livro Serafim Ponte Grande. O trecho que reflete a atualidade da obra de Oswald: “Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas.”

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