Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o Futuro



Um novo clássico
Persépolis
Marjane Satrapi
Quadrinhos na Cia.

2794_persepolisO curioso livro laranja de Marjane Satrapi tornou-se em 10 anos um clássico das HQ’s. Publicado em mais de 20 países e adaptado para o cinema em 2008, Persépolis é uma obra de caráter autobiográfico que conta a história do Irã através dos olhos da pequena e da jovem Marjane.

As ilustrações simples em preto chapado parecem uma solução estética perfeitamente adequada aos fatos que a autora pretende relatar. A repressão islâmica, e a dificuldade inicialmente infantil de enxergar os fatos de modo tridimensional parecem ser relevantes na composição dos desenhos de Satrapi.

Podemos deduzir que uma das principais razões para o enorme sucesso de público e crítica é a aproximação que a autora consegue tramar entre o ocidente e o oriente. Muitos conflitos vividos por Marjane são familiares a todas as pessoas, o que acaba tornando o principal conflito do livro, as complexas e seculares questões políticas do Irã, parte de uma realidade um pouco menos distante de nós.

Um clássico dos clássicos
Avenida Dropsie - a vizinhança
Will Eisner
Devir Livraria

Quem vive nas grandes cidades sabe que uma das coisas mais interessantes de se observar é a transformação das ruas e bairros através do tempo. Nesta maravilhosa HQ do mestre Will Eisner, a história da Avenida Dropsie, localizada no sul do Bronx de Nova York, é contada e desenhada durante um longo período de tempo que vai de 1870 até a década de 90.

Repleta de conflitos familiares e sociais que refletem de uma maneira única as tensões históricas do século XX, “Avenida Dropsie” é um marco do realismo sutil característico do traço de Will Eisner, capaz de enxergar com olhos intimistas e curiosos o que se esconde por baixo da dura realidade urbana.

Poesia em quadrinhos?
Fernando Pessoa e outros pessoas
Grazelli, roteiro de Davi Fazolari
Ed. Saraiva

2794_fpessoaIlustrar um poema cru, ocupando o espaço branco do silencia de uma página é, sem dúvida, uma atividade incrivelmente complexa, mas transformar poemas em arte seqüencial é um feito que merece ainda mais atenção.

O trabalho de Guazelli e Fazolari consiste em adaptar para quadrinhos os poemas Tabacaria, Desassossego de Bernardo e outros de Alberto Caeiro e Ricardo Reis, para isso, passam a encarar a própria Lisboa como uma espécie de personagem, uma atmosfera tão significativa e reveladora que tem a possibilidade de falar por si mesma. O belíssimo trabalho de Grazelli com as cores é notável, ele alterna quadrinhos coloridos com quadrinhos em branco e preto dependendo do heterônimo de Fernando Pessoa e do que o ilustrador julga serem as emoções mais fortes provocadas pelo poema.

É perceptível que, antes de serem roteiristas e desenhistas muito talentosos, os dois são leitores dotados de uma sensibilidade literária realmente muito apurada, pois a harmonia entre as ilustrações e os poemas quase nos faz duvidar um pouquinho de que foram criados separadamente.

Uma biografia
Che - Os últimos dias de um herói
Hector Oesterheld / Alberto e Enrique Breccia

2794_cheEsta biografia em quadrinhos tem tanta história que poderia ser inspiração para outra biografia, ela poderia tranquilamente inspirar uma meta-biografia do Che. Acontece que originalmente essa HQ foi lançada na Argentina, em 1968, pouco depois da morte de Che Guevara na Bolívia. A função da obra na época era divulgar e popularizar a figura do líder da revolução cubana, consolidando sua figura heróica e afirmando a imagem mítica de Ernesto Guevara. O sucesso foi absoluto, os três autores: Hector, Alberto e seu filho Enrique Breccia eram bastante renomados, seus traços marcantes e seus quadrinhos sem cor fizeram jus ao vigor e a toda a face sombria da guerrilha. Mas ter agradado demais os leitores argentinos não foi a escada para o sucesso dos autores, pelo contrário, depois que a HQ foi publicada, o governo iniciou uma perseguição implacável contra Hector e os Breccia que terminou com a prisão, tortura e assassinato de Hector Oesterheld e suas quatro filhas.

A beleza e o tom meio épico carregado de poesia crua dessa importante HQ fez com que cartunistas como Frank Miller a considerassem um marco para a história da arte seqüencial. Realmente é interessante ler, não apenas para contemplarmos o belíssimo trabalho desses importantes autores, mas para tentarmos compreender o que, nestas sóbrias ilustrações, assumiu uma força política que conseguiu superar o valor puramente artístico de cada quadrinho-obra-de-arte dessa composição.

A novidade
Três Sombras
Cyril Pedrosa
Quadrinhos na Cia

2794_tressombrasLançado esse ano pela Cia das Letras, com o selo da nova coleção “Quadrinhos na Cia.”, Três Sombras é uma delicada e comovente história sobre um pai tentando livrar seu filho do encontro com a morte.

Nada é contado ou desenhado por um prisma realista, o menino Joachim não está morrendo por doença ou algo do tipo, ele está sendo vigiado por três sombras. A fuga desesperada do pai de três vultos indefinidos e as questões morais confrontadas durante sua jornada imprimem à história fantasiosa uma aura de mistério que a leva para bem longe das obviedades narrativas, a sensação que temos é que realmente há muito mais sendo dito do que nos parece a primeira vista.

O traço gracioso e arredondado de Pedrosa (um desenhista francês que trabalha também como roteirista e já trabalhou como animador para a Disney) desliza com astuta delicadeza sobre o medo da perda e o amor que envolve a família de Joachim, compondo uma maravilhosa metáfora da morte. Contudo, é frustrante resenhar esse livro, o mais importante sobre ele não é passível de ser escrito e necessita imprescindivelmente da experiência de leitura. É mais que uma dica, sugiro aos que consigam encontrar o Três Sombras que permitam a esse livro encontrá-los.

 


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