
(Entrevista 1 : Primeiro Movimento )
LER E ESCREVER COMO SE VIVE. COMO SE APRENDE A VIVER!
Antonio Gil Neto
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(O que de mim posso dizer dentro desse parênteses para você não andar perdido ou desinteressado é que, na melhor das hipóteses, me considero um andarilho. Um catador de conversas, talvez. Vivo entre perguntas incessantes com respostas afloradas às vezes. Vivo perto dos que se desenham personagens por algum instante. Deles sondo as histórias, visito as memórias mais recônditas. Vislumbro seus fazeres. Resgato palavras interessantes, digamos, pitorescas. Algumas pinceladas destas conversas sorrateiras - muitas intermináveis - deixo por aqui como quem deixa uma carta inacabada, um desenho incompleto, um conto quase vazio ainda sem desfecho. Já disse o que posso. Deixo espaço para a sua imaginação desatar-se, render. Uma boa estratégia de viver, sonhar, não é?)
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O que vai nessa primeira vez? Algo da conversa com uma professora de uma das escolas salpicadas no emaranhado da nossa cidade. Antes, digo que a entrevista é um tanto às avessas. No laçar das respostas despontadas ando mesmo a colecionar perguntas. Vou conversando com o meu quase entrevistado sem saber ao certo das indagações que se abrem dos incômodos, dos andamentos. As perguntas são o avesso das respostas acontecidas no correr da prosa. Sempre teimam questões a pendurar no ar dos horizontes.
Esta teimosa entrevista é com Brasiliana M. Silva. Desde os seus 19 anos lida com alunos, a ensinar o manejo da língua. Já está com seus 23 anos de trabalho, 11 nessa mesma escola. Mas, como ela diz, “há ainda um campo vasto e inesperado para eu trilhar...”.
Conversamos em momentos seguidinhos em pequenos períodos de intervalo, clareiras miúdas no corriqueiro dia-a-dia quando tudo urge. Na moldura alguma algazarra quase festiva vinda dos movimentos das aulas, dos recreios. Em tela a memória da lida: as ensinanças. Os risos das crianças eram alegrias espetadas no ar. Valiam por infinitas primaveras. Se fechássemos os olhos acho que veríamos um arco-íris em fogo. Mas, de olhos abertos, aos poucos, entregávamo-nos a imaginar algum silêncio mínimo abrandado pelo interesse, pela comunhão. As suas mãos vagavam como em proteção ao olhar. Brincavam sozinhas enquanto os alaridos adormeciam em lentidão. Um vazio nobre sobrava silencioso. Pálpebras aguardavam inquietações entre silêncios almejados do impossível.
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P. : O QUE VOCÊ ESTAVA DIZENDO MESMO?
R. : Ah, falo que há muito para se aprender com as enciclopédias, com os documentários, com as delicadas explanações, com o fazer dos nossos companheiros de profissão. Mas também aprendemos e muito investigando os nossos próprios feitos, o nosso pensar, o nosso sentir. O que estará por detrás dessa aprendizagem dos sentidos que afloram na nossa pele cotidiana? Eis o inseparável do que se sente e do que se quer saber. Uma pequena viagem afetiva para se incluir no campo das descobertas, no moto contínuo da nossa formação.
P.: VC DEVE TER UM LONGA TRAJETÓRIA...COMO VOCÊ CHEGOU AQUI?
R.: Vim do interior... Faz mais de 28 anos que lido com Educação. Desde os 18 já faço isso. Comecei com crianças pequenas, com cartilha. O bê-a-bá era outro. A vida era outra. Eu era outra...Bom, quando comecei me vi como um livro aberto, virgem, sem nada, sem escrito, sem rascunho, sem desenho. Só o espaço em branco. Só trazia minha esperança enroscada em sonhos para dela retirar esse meu delicado sustento: o de ensinar. Agarrava toda oportunidade de aprender, descobrir o melhor, o mais adequado talvez. Fui me deixando levar por isso. Até hoje prezo algum espaço em branco nas linhas que já escrevi. Levei minha experiência, a minha história no primeiro dia de aula e acho que até hoje faço algo assim. Claro que tenho mais ferramentas para utilizar! Sabe que no começo fiquei triste, confusa quis desistir! Mas a minha desistência foi virando luta, brechas para aprender a ensinar melhor com mais eficácia. Se pensar é luta insana, sem fim. Pensei que o tempo vivido na escola tinha que ser sustentador para assim engrandecer a vida dos meninos que ali estavam. Marcada pelo grande feito de aprender sobre o mundo, sobre a leitura e a escrita que espelha a humanidade. Não queria ver alunos decorando, devolvendo conteúdos como um empréstimo a juros altos. Queria um espaço de jogo, de descobrir sentidos, de existir na própria reflexão ímpar de cada um. Fui mudando meus objetos de estudo da gramática para o própria língua em vida. Busquei estudos, me inteirei sobre várias teorias. Li e estudei muito. Mas fui experimentando, inventando, reiventando rumos. Dei com muitos burros se afogando em águas pedagógicas turvas. Mas com esse afogados aprendi a buscar outras travessias, outras águas. A primeira e grande lição que aprendi comigo mesmo e com os meus estudos amadurecidos e aplicados na minha criação e necessidade foi não ter medo de errar. Sei que o saber sobre algo que não andou certo guarda alguma capa de possibilidades, outras que podem dar certo. Criei um diálogo comigo mesmo, incansável e sem mentiras. Uma espécie de cumplicidade com a minha criação, o que dá alma a minha profissão. Isso passa para o aluno em respeito e verdade, sabe? Com tantos problemas das modernidades que chegam na sala de aula acredito em algumas estratégias e vou me lançando a elas, intrepidamente. Comigo vão as minhas turmas. Muitas vezes tenho feridas, dói a alma. Mas se mesclam entre algumas alegrias, pequenos sucessos que fazem chão para continuar.
P. : NA TAREFA DE EDUCAR COMO FICA O ENSINAR A LER, A ESCREVER?
R. : Quer um bom começo? Começo a ler. Leio literatura, na maioria das vezes. De verdade. Você pode ajudar e deve, mediar... Afinal é sua tarefa, de educador, não é? Por vezes, dependendo de como a coisa pega, conta um pedaço, dramatizo até, leio um trecho escolhido a dedo feito para colar no sentimento do grupo e espero. Faço de tudo para que as palavras do livro sejam acolhidas por alguma curiosidade deles. Pelo menos de alguns. Penso que devorarão o que sentem, o que se revela pelas palavras como quem viaja um pouco pelo imaginário. Tudo com liberdade e esperanças. Não importa por onde se começa a ler. O importante é que os alunos sejam leitores de fato. Não quero ver os alunos abrindo livros com se instalassem neles arames farpados. Quero ver os olhos se adentrarem nas páginas como quem abre janelas a percorrer horizontes. Já estou numa fase que parece não me contentar mais com ler os livros. Quero vivê-los! Nas entrelinhas entre as palavras se apresentando, depois sacudindo vibrante o meu repertório de ideias. Tenho um mundo interno dentro de mim para isso e do qual posso muito bem dispor. Aprender a ler, a escrever não tem fim. Você já sabe viver? Pois é pergunta esquisita. Há sim e não como resposta. Soubemos viver até agora, estamos vivos, sobreviventes e com esta experiência vivida ainda enfrentaremos os futuros próximos ou distantes. Pois é, na escola temos de ensinar os alunos a ler e a escrever na experiência e na necessária esperança de que tenham possibilidades de realizações em seus futuros que se esboçam no presente por nós mediados e compartilhados. Nossa ação mediadora deve acontecer. Não se volatilizar em burocracias e deveres aparentes. À mercê desse futuro incerto e valoroso estamos todos nós, não é?

Comentários
Fico feliz com o seu retorno aqui no nosso espaço conversador, sobretudo pela sua mensagem.
Endosso o convite feito por vc para que os viajantes que por aqui passam visitem o BLOG que vcs criaram na sua Escola em Sumaré, dando mostra dos trabalhos e dos textos finalizados.
Visitei o Blog e assim sou testemunha desse bom destino dados aos textos produzidos. Uma boa saída pedagógica para a publicação dos textos, não acham?
Abraço para vc e também para os que junto com vc realizaram este Blog especial.
Gil.
Que vc ainda curta bem este finalzinho de férias! Imagino que a sua alma, um tanto descansada, se renovará neste recomeço. Vc é toda entusiasmo, alegria e isso move bem a vida, como se as férias ainda permanecessem nos dias regulares, não é?
Sei que seus novos projetos serão iluminados pela sua disponibilidade tão genuína e especial!
Bom fim de férias e ótimo retorno!!!
Abraços,
Gil.
escolajeny.blogspot.com.br/
Postamos textos, videos, imagens e reportagens sobre nosso projeto.
Que alegria sinto ao ler estas palavras que me sabem tao bem na alma. Retorno para Cabo Verde dia 8. As aulas recomecam no dia 17.
Entao o comando e todo seu para darmos inicio . E as palavras que se vao cruzar sao de todos nos. Que bom!!!!!!
Abracos !!!!!!!!!!!
Abracos!!!!!!!
Manuela
( Olha aí: exclamações!)
Vc nem pode imaginar a alegria que acabo de sentir agorinha em ler a sua mensagem tão especial neste nosso velho espaço conversador.
Faz tempo que não te vejo por aqui... Fico imaginado o que vc andou realizando pelos caminhos educadores e literários da vida...
Sempre me lembro de vc com um toque mais que especial em lidar com as palavras, com as ideias... Para mim vc é uma escritora, pelo pouco que li de vc por aqui nos tempos passados.
Mas isso é uma conversa de velhos conhecidos, não é?
Hoje iniciamos estes 3 momentos de uma CONVERSA IMAGINÁRIA ( já com algumas CRUZADAS) desenlaçada tão lindamente por vc... Acato, agradeço e continuo. Que vc seja nossa companheira de olhos dos mais espertos e de quando em vez de sábias palavras desenhadas de se ler...
Bons abraços,
Gil.
E aí está vc, entrando calmamente em nossa roda de histórias que se cruzam a nos encantar com as suas palavras de vida: as suas lembranças! Tenha a certeza de que todo este sentimento de luta e crença pela educação irá esplandecer nos olhares leitores que por aqui passarem..
Muito legal isso que vc diz ; " a cada desafio aumenta a vontade de ensinar, de aprender junto, de crescer...". E é verdade, acho que a Brasiliana é uma somatória de todos os educadores que vão transformando medo de errar em acertos, possibilidades. Como vcs!!!
Muito legal conhecer um pouco do seu discurso que veio forte no lugar dos versos. Vamos ficando rico de lindos depoimentos. E agora vamos aguardando a próxima a entrar na roda e a sequência destas CONVERSAS IMAGINÁRIAS...
Maior abraço,
Gil.
Que bom que vc retornou por aqui!Uma vez que salta já sentimos sua falta...
Imagino que vc tenha terminado seu período de viagens e agora tudo recomeça. É isso? Como está este recomeçar?
Vc deve saber do fundo d'alma que suas palavras sempre me elevam o espírito e a tarefa maravilhosa de criar e criar... Fico extremamente feliz se levo um pouco de sol e alegrias em seus horizontes d'além mar...
Como vc bem diz este espaço de conversas em palavras livres me faz aprender também, e muito. E quando vc diz que transforma tudo isto em prol do seu trabalho em sua sala de aula isso me gratifica e me deixa nas nuvens!!! É claro que é vc que é uma sensível catadora e colecionadora dos bons sentimentos humanos que sei. Isso é que conta... Eu que agradeço portanto.
Pois é, essa etapa das CONVERSAS IMAGINáRIAS terá 3 momentos de uma entrevista com uma professora. Neste movimento primeiro ela fala mesmo de aprendermos investigando os nossos feitos com olhar de quem fez e se supera a todo o instante, não é? Acredito nisso...
Adorei em especial quando vc diz que a professora do texto também é vc. Dos medos iniciais vc vai se aprimorando sempre, não é assim? Sinto por aí....
Como vc vê a ideia da Maria José vai acontecendo. Ela disse um pouco , vc também e com certeza algumas das nossas visitas dirão algo também sobre esse tema.E é verdade: O titulo sugerido de um sonhado livro já temos: "Histórias Cruzadas".
Forte abraço!
Gil.
Gostei muito da entrevista/entr emeio poético com a Brasil + ana.
Ah, o paratexto/parên teses/anzol para leitor surtiu efeito.
Abraços, "catador de conversas".
fazer de outro jeito, vamos nos lapidando e separando burocracias,dev aneios de aprendizagem e ensinagem.
De facto voce e um bom andarilho, pois nas suas andancas e conversas vai colhendo frutos para ampliar nossos horizontes. Desde o dia que descobri seu blog, aprendi muito, ganhei mais experiencias para a minha sala de aula. Obrigada!!
Adorei a entrevista da professora, de facto aprendemos investigando os nossos proprios feitos. Ja agora digo que estou sempre relendo os comentarios que vamos trocando por aqui e atraves deles vou aprendendo sempre mais. Muito daquilo que a professora disse, tambem foi vivido por mim. Ainda me lembro dos medos que sentia quando entrava pela primeira vez nas salas de aulas e hoje vejo o quanto desenvolvi. Acho lindo a ideia de Maria Jose, de contarmos as nossas historias do inicio do magisterio. Daria um lindo livro "Historias cruzadas no cantinho do Gil"
Grande abraco!
Manuela
Com a minha postagem e a sua iniciamos por aqui mais um série, essas CONVERSAS IMAGINÁRIAS que poderão suscitar tantas palavras que foram desenhando a nossa vida de educador, não é?
Dessa vez é uma entrevista com uma professora, em 3 movimentos que poderiam zunir para um infinito. Mas acho eu que fica guardada na emoção do entrevistador, um pesquisador de perguntas...(Vc pode conferir isso...)
Pensando bem acho que somos tudo isso. E mais. Devo lhe dizer que adorei vc entregar na nossa praça virtual um pouco da sua trajetória pelos magistérios. Me adentrei pelo seu tempo, dos primeiros até este último feito, aí no interior da Bahia que desabrochou em aprendizagens verdadeiras...V iajei também, como um viajante imaginário...
Apoio o convite emoldurado no seu escrito: quem sabe não poderemos aqui contar sobre nossas próprias histórias acolhidas pelo agora das palavras em nossas mãos criadoras e vividas...Vou esperar por vcs imaginando, assuntando, rascunhando essa geometria infinita que abriga tantas e tantas
vidas silenciosas, educadoras que moldam o sentimento do mundo...
Até a próxima e obrigado pelo depoimento especial!
Aproveito para PARABENIZAR todo esse pessoal animado da Escola Municipal Dr. Décio de Santana, no Povoado Curral Falso e envio por vc o meu carinho pelos feitos...
Abraços e abraços,
Gil.
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